Sob protesto de cristãos, aborto de anencéfalos (fetos sem cérebro) é legalizado pelo STF no Brasil
O Supremo Tribunal Federal aprovou por 6 votos a favor e 1 contra (até o
fechamento desta matéria) o aborto em casos de fetos anencéfalos, ou
seja, bebês gerados sem cérebro. Com os 6 votos até o momento é
impossível haver uma maioria de votos contra a proposta já que restam
apenas 3 votos dos ministros Celso de Mello, Gilmar Mendes e Cezar
Peluso.
O termo “aborto” mal foi usado durante o julgamento. A expressão foi
substituída por “antecipação terapêutica do parto” gerando diversas
críticas pelos adeptos da causa “pró-vida”, que é contra o aborto. Os
ministros que votaram a favor são, em ordem de apresentação do parecer:
Marco Aurélio Mello, Rosa Weber, Joaquim Barbosa, Luiz Fux, Cármen Lúcia
e Ayres Brito. Já o ministro Dias Toffoli se disse impedido votar por
ter sido anteriormente, como advogado-geral da União, um dos
participantes do processo e já ter dito em público que é a favor da
legalização do aborto de fetos sem cérebro.
O ministro Ricardo Lewandowski votou contra a proposta e afirmou:
“não é dado aos integrantes do Poder Judiciário promover inovações no
ordenamento normativo como se fossem parlamentares eleitos”, o ministro
também lembrou que os fetos anencéfalos sentem dor e reagem a estímulos
externos, e afirmou que a lei sobre aborto é clara e sem margem para
interpretações, por tanto a interrupção da gravidez neste caso seria
crime. Ao fim de seu discurso, Lewandowski ainda disse que a legalização
do aborto de fetos sem cérebro faria o Brasil voltar a idade média,
quando “crianças fracas” aos olhos da sociedades eram sacrificadas.
A ministra Cármen Lúcia, que votou a favor da causa, afirmou que
“exatamente fundado na dignidade da vida neste caso acho que esta
interrupção não é criminalizável”. Já Luiz Fux entende que “impedir a
interrupção da gravidez sob ameaça penal equivale à tortura. A ameaça
penal não tem a menor eficácia. Há dados aterrorizantes sobre a morte de
mulheres que fazem o aborto de modo incipiente e depois têm de fazer a
via crucis em hospitais públicos”.
Sobre a criminalização do aborto de anencéfalos, a ministra Rosa
Weber afirmou que a “interpretação extensiva é que viola direito
fundamental da gestante, já que não há direito fundamental à vida em
jogo”, enquanto que o relator da ação, ministro Aurélio Melo, disse que
“não cabe impor às mulheres o sentimento de mera incubadora, ou melhor,
caixões ambulantes”.
Sobre a ação e o julgamento de aborto por anencefalia
A decisão dos ministros uniformiza as decisões que os demais juízes
deverão tomar em casos semelhantes. Como não há legislação específica
para casos de fetos anencéfalos, os ministros julgaram a ação da
Confederação Nacional dos Trabalhadores da Saúde, movida em 2004 e
mantida em discussão até hoje. O Código Penal classifica todo tipo de
aborto como crime, porém, prevê a retirada do feto em casos de estupro
ou risco de morte da mãe, em casos de gestações delicadas.
A ação da CNTS foi motivada por anos de decisões diferentes dos
juízes a respeito dos casos de anencefalia. Em alguns casos, os juízes
concediam o direito de interromper a gravidez e em outros, negavam.
Haviam também casos em que a ação perdia o objeto da razão devido a
lentidão do judiciário, e quando a causa chegava às mãos do juiz, o
parto já havia ocorrido.
A decisão tomada hoje pelo STF uniformiza o entendimento do
judiciário sobre a questão, porém não resolve o problema, pois a cada
novo caso de uma gestação com feto anencéfalo, os interessados deverão
mover uma ação para ter o direito à interrupção da gestação.
Legislação sobre aborto
Para que o aborto nesses casos seja descriminalizado, e ocorra sem a
necessidade de uma ação judicial, é preciso que o Congresso Nacional
aprove uma lei, regulamentando a prática. Existem dois projetos sobre o
tema aguardando para serem votados. Segundo o deputado federal Anthony
Garotinho, “os projetos estão parados não é porque são polêmicos, é
porque a tramitação na Casa é cheia de obstáculos”.
Ele se posiciona contra a possibilidade do aborto nesses casos, mas
afirma que não se pronuncia em nome de toda a bancada evangélica: “Não
posso falar pela bancada, mas os anencéfalos, na minha opinião, se for
permitido interromper a gravidez, vai abrir um leque de outras opções.
Amanhã vai ser possível identificar uma criança com Síndrome de Down e
outras deficiências. E essas crianças? Serão abortadas também?”,
questiona o deputado.
Durante o julgamento, o advogado da CNTS afirmou que “a interrupção
nesses casos não é aborto. Então, não se enquadra na definição de aborto
do Código Penal. O feto anencefálico não terá vida extrauterina. No
feto anencefálico, o cérebro sequer começa a funcionar. Então não há
vida em sentido técnico e jurídico. De aborto não se trata”, disse Luis
Roberto Barroso, de acordo com informações do G1.
Cristãos protestam e fazem campanha contra a legalização
O teólogo José Barbosa Junior se posiciona favorável ao direito de interromper a gravidez nos casos de má formação do cérebro. Num artigo escrito em 2004, Junior afirma que o fanatismo religioso acaba sendo o motivador de injustiças:
“Até quando seremos reféns dos homens-deuses que se julgam no direito
de mandarem nas vidas alheias? Até quando o fanatismo religioso
continuará a comandar atrocidades em nome daquele que certamente
condenaria tudo isso? Até quando nos veremos presos à vontade imperiosa
de organizações que deveriam se importar com outras coisas?”.
Entre as lideranças cristãs, o pastor Silas Malafaia e o pastor e
deputado Marco Feliciano lideraram uma campanha pela reprovação do
aborto, pedindo que fiéis e internautas enviassem e-mails aos ministros,
pedindo que eles votassem contra a aprovação.
Silas Malafaia afirmou que “esta é a moderna depuração dos nossos tempos.
Aborto de anencéfalos, daqui a pouco aborto para quem tem Síndrome de
Down, depois qualquer bebê na barriga da mãe que tenha qualquer
deficiência. A vida é um dom de Deus, está na sua autoridade dá-la e
tomá-la”, numa referência ao nazismo.
O pastor Marco Feliciano relatou no Twitter, um drama pessoal que
viveu, com um filho que nasceu com problemas, não especificados pelo
pastor, e criticou a postura de não proteger a vida humana: “Nosso país
tem leis que protegem tartaruga, araras, animais em geral, mas bebês com
problemas de formação devem ser eliminados! Vergonha… Sepultei um
filho, nasceu com problemas, ter estado com ele alguns minutos foi
melhor do que nunca ter estado com ele. Eu e minha esposa sobrevivemos”.
Gospelmais
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