A marcha da intolerância. Ou: A única vítima de preconceito é o pastor! Ou: Os “fascistoides do bem” estão cada vez mais assanhados
Escrevi
aqui alguns posts sobre o processo que o Ministério Público Federal
move contra o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus. A maioria de
vocês deve conhecer o assunto, mas sintetizo para quem está chegando
agora. Em junho do ano passado, a passeata gay levou à avenida modelos
caracterizados como santos católicos em situações homoeróticas. Também
prometeu imprimir as imagens em 100 mil invólucros de camisinha. Não sei
se realmente o fez. Malafaia censurou o comportamento das lideranças
gays e recorreu a determinadas palavras que o MP caracterizou como
incitamento à violência. Dada a transcrição de sua fala que circulava
por aí, o processo já me parecia absurdo. Agora que vi o vídeo, vai além
do absurdo: trata-se de um troço acintoso, típico de sociedades
totalitárias, o que ainda não somos (embora estejamos no rumo). Sei que
muitos vão ficar indignados com o que vem agora, mas paciência! Quem
está sendo vítima de preconceito é Malafaia! Antes que o demonstre,
algumas considerações de ordem geral.
Não vou
colaborar, com o meu silêncio, para a reinstalação da censura no Brasil,
dê-se ela pela via judicial ou por força do barulho de grupos de
pressão que repudiam a democracia. Quando rompi com a esquerda lá
atrás, na juventude, foi exatamente por isto: não aceito que partido,
grupo ou grupelho decidam o que posso pensar ou não — em especial quando
essa patrulha se exerce na contramão de direitos garantidos por uma
Constituição democrática. Desde o fim do regime de exceção, não percebo
tão presente a patrulha. Corri um risco razoável sendo um adolescente
meio bocudo contra a ditadura. A democracia nos permitiu o suspiro de
alívio. Agora, ameaça-nos uma nova censura: não pensar de acordo com os
que se organizam em grupos e hordas para definir “a verdade”. Não raro, é
gente que depreda a liberdade que outros conquistaram. Modéstia às
favas, estou entre esses “outros”. Volto ao caso.
Não sou
evangélico. Não conheço Silas Malafaia. Nunca falei com ele. Discordo de
algumas de suas teses, e, se ele leu uma coisa ou outra que
escrevo, sabe disso. Mas tentar processá-lo por aquilo que não fez???
Acusá-lo de crime que não cometeu??? E tudo porque seus acusadores
formam, afinal, um grupo hoje influente, organizado a tal ponto que o
país pode votar uma dita lei anti-homofobia que é uma espécie de AI-5
Constitucional filtrado pela teoria da “diversidade sexual”? Aí, não dá!
Não será com o meu silêncio.
Esses grupos
militantes — gays, feministas, racialistas, minorias várias — são muito
ligeiros em acusar seus adversários de “fascistas”, de “autoritários”,
de “reacionários”, mas impressiona a rapidez e a desenvoltura com que
defendem a censura, a punição de quem pensa diferente, a exclusão dos
adversários do mundo dos vivos. Esses intolerantes são, em suma,
intoleráveis.
Quem me
acompanha sabe o que penso. Ninguém é gay porque quer — fosse escolha,
todos seriam heterossexuais. Sou favorável à união civil, por exemplo.
Mas considerei, e considero, absurda a decisão do Supremo que igualou
legalmente os casais gays aos héteros. A razão é simples. A Constituição
é explicita ao afirmar que a união civil se estabelece entre homem e
mulher. Sem a mudança da Carta — o que só pode ser feito pelo Congresso
—, o Supremo legislou e fez feitiçaria constitucional. Atrás desse
precedente, podem vir outras “interpretações criativas” da nossa Lei
Maior.
De fato, a
tal Lei Anti-Homofobia um mimo do autoritarismo, sob o pretexto de
proteger uma categoria. Entre outros absurdos, um chefe ou dono de uma
empresa, ao dispensar um funcionário gay ou ao não contratar um
candidato gay, teria de provar que não age movido por “homofobia”. Uma
lei que torna, de saída, suspeita a esmagadora maioria dos brasileiros
não é uma boa lei. De resto, ela impõe restrições a convicções
religiosas, sim!
A proteção a
minorias não pode ser maximizada a ponto de pôr em risco direitos
fundamentais — entre eles, a liberdade de expressão. Esse caso
envolvendo Malafaia me incomodou especialmente porque é preciso pôr um
ponto final à ousadia dessas hordas fascistoides — fascitstoides, sim! —
que saem por aí satanizando pessoas na Internet, atribuindo-lhes coisas
que não disseram e não escreveram. Eu mesmo sei que sou saco de pancada
de alguns grupos militantes — e da rede suja alimentada por dinheiro
oficial. É claro que toda essa gente tem motivos de sobra para me
detestar. Mas que o fizessem, ao menos, com coisas que realmente me
pertencem, que saíram do meu teclado. Não! Em nome do que dizem ser a
“democracia”, a “igualdade de direitos”, “o combate ao preconceito”,
mentem de forma deslavada, metódica, decidida.
Abaixo,
publico o vídeo de Malafaia em que ele critica a decisão dos gays de
levar os “santos homoeróticos” para a avenida. Ninguém precisa
concordar, reitero, com a sua análise, o seu estilo, as suas escolhas.
Mas será mesmo que ele pregou agressão física aos gays? Vamos ver. Volto
em seguida.
Veja o vídeo:
Voltei
Em 1min27s, criticando o silêncio da imprensa diante da agressão cometida contra os símbolos católicos, o pastor afirma: “E a imprensa não diz nada. Não baixa o porrete”. Ora, é óbvio que ele não está censurando a imprensa por esta não ter batido nas lideranças gays, certo? “Não baixar o porrete” quer dizer, simplesmente, não criticar, omitir-se, silenciar.
Em 1min27s, criticando o silêncio da imprensa diante da agressão cometida contra os símbolos católicos, o pastor afirma: “E a imprensa não diz nada. Não baixa o porrete”. Ora, é óbvio que ele não está censurando a imprensa por esta não ter batido nas lideranças gays, certo? “Não baixar o porrete” quer dizer, simplesmente, não criticar, omitir-se, silenciar.
Malafaia
conta que é alvo constante de sites gays, que o chamam de “doente” e que
exploram a sua imagem, associando-o a coisas não muito boas. A gente
sabe bem como é isso. Aos 2min26, referindo-se a interlocutores que lhe
recomendam que processe seus detratores, ele conta o que lhe dizem: “Pastor mete o pé; entra contra eles [na Justiça]“.
E emenda: “Eu lá vou perder meu tempo com isso?” Evidentemente, não
estão recomendando a ele que chute as lideranças gays, mas que recorra à
Justiça.
Aos 3min22s, Malafaia se refere explicitamente à Igreja Católica. Assim: “É
pra Igreja Católica entrar de pau em cima desses caras, baixar o
porrete em cima, pra esses caras aprenderem. É uma vergonha. Protestar,
sabe? Pra poder anunciar… Botar pra quebrar. Pagar em jornais notícias!
Não querem dar? Paguem aí vocês da Igreja Católica, botem notícia pro
povo saber. Isso é uma afronta, senhores! É o que eles querem! Depois
querem chamar a gente de doente. Quem são os doentes, afinal de contas,
que não respeitam a religião de ninguém, que debocham da religião dos
outros, que debocham dos outros? Quem são os doentes?”
Resta
escandalosamente claro que expressões como “baixar o porrete” e “entrar
de pau” sugerem uma reação no terreno da comunicação. Ele é explícito ao
sugerir que a Igreja Católica pague anúncios na grande imprensa
protestando contra a ofensa. É isso o que quer dizer “baixar o porrete”.
Preconceito
Cadê o incitamento à violência? Cadê a discriminação? Cadê a homofobia? Então os militantes gays — que trato como grupo distinto dos cidadãos gays — podem não só vilipendiar símbolos católicos (e não estou sugerindo medidas legais contra eles, não! Mas têm de aguentar a reação da sociedade, certo?) como agora têm o poder, também, de decidir o que é e o que não é crime porque conta com um Ministério Público sensível à sua causa? Ora, vão plantar batatas!
Cadê o incitamento à violência? Cadê a discriminação? Cadê a homofobia? Então os militantes gays — que trato como grupo distinto dos cidadãos gays — podem não só vilipendiar símbolos católicos (e não estou sugerindo medidas legais contra eles, não! Mas têm de aguentar a reação da sociedade, certo?) como agora têm o poder, também, de decidir o que é e o que não é crime porque conta com um Ministério Público sensível à sua causa? Ora, vão plantar batatas!
Até o
senador Lindberg Farias (RJ), que é do PT — e isso quer dizer que não é
da minha turma ideológica —, num rasgo de bom senso, afirmou que
Malafaia não tinha incitado a violência coisa nenhuma. Foi alvo de um
protesto veemente do setor GLTBXYZ do partido. Na carta que lhe
enviaram, curiosamente, nem entram no mérito da acusação. Contentam-se
em tratar o pastor como inimigo. Vale dizer, se é inimigo, que importa
que possa ser injustamente acusado?
Encerrando
Não vou silenciar diante disso! Posso discordar de Malafaia em muita coisa. E daí? Mas concordo plenamente com o seu direito de dizer o que pensa. Mais ainda: concordo que ele deve arcar com o peso do que disse — como qualquer um de nós —, mas jamais com o peso daquilo que não disse.
Não vou silenciar diante disso! Posso discordar de Malafaia em muita coisa. E daí? Mas concordo plenamente com o seu direito de dizer o que pensa. Mais ainda: concordo que ele deve arcar com o peso do que disse — como qualquer um de nós —, mas jamais com o peso daquilo que não disse.
Agora que vi
o vídeo, digo com todas as letras: a ação do Ministério Público é
ridícula. Serve apenas para alimentar a militância com uma causa. E se
trata, obviamente, de mais uma tentativa de molestar quem não reza
segundo a cartilha. O MP não é polícia do pensamento. E me parece que
deve ser, sim, apurada a falha funcional de quem mobilizou recursos
públicos para mover uma ação que se caracteriza, por seus próprios
termos, como uma falsa imputação de crime.
O movimento
gay tem todo o direito de combater as ideias de Malafaia — como
reivindico o direito de criticar as coisas de que não gosto. Mas que
tal fazer um embate honesto de pontos de vista? O único tratado com
preconceito, até agora, nessa história é o pastor. Odiar o que ele diz é
um direito. Tentar processá-lo pelo que não disse é coisa de ditadores,
de totalitários, de intolerantes.
Recomendo
aos comentaristas que se atenham à natureza do debate. Os homossexuais,
a homossexualidade, as religiões, a religiosidade, os evangélicos ou
os católicos não estão em questão. Estamos tratando de direitos
fundamentais, da liberdade de expressão e da mobilização do estado para
punir quem não cometeu crime.
Por Reinaldo Azevedohttp://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/a-marcha-da-intolerancia-ou-a-unica-vitima-de-preconceito-e-o-pastor-ou-os-fascistoides-do-bem-estao-cada-vez-mais-assanhados/
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