Vamos curtir a festa do fim do mundo
A Terra (toc, toc, toc) não vai desaparecer em 21 de dezembro, mas a mística em torno do calendário maia atrai milhões de turistas ao México. Os nativos não acreditam em nada disso, só aproveitam
Os relógios começarão a última volta às 23h59 do próximo 20 de
dezembro, e a Terra testemunhará os primeiros segundos do dia seguinte.
Depois virão os primeiros minutos e, logo, as primeiras horas. Se a
ciência não estiver enganada, as previsões de que o apocalipse começará
em 21 de dezembro de 2012 não se concretizarão, e quase todo mundo
respirará aliviado. Por que “quase todo mundo”? Ah, porque a Terra não
vai acabar, mas a festa dos mexicanos vai. Mais especificamente,
daqueles que estão lucrando com o fim do mundo.
Os cinco Estados do Circuito Maia (Campeche, Chiapas, Tabasco, Quintana
Roo e Yucatán), no sudeste do México, esperam até 52 milhões de
turistas estrangeiros ao longo do ano – a média anual para o país
inteiro é de 22 milhões. Eles trarão uma quantia estimada em US$ 20
milhões. Essa multidão quer sentir a aura maia, que emana das inúmeras
ruínas deixadas pela avançada civilização dominante na região por
séculos – o auge foi de 200 a 950 d.C. – e subjugada pelos colonizadores
espanhóis no século XVI. O governo mexicano investiu US$ 8 milhões numa
campanha de promoção do Ano Maia. Em abril, Paul McCartney fará um show
em Chichén-Itzá, o conjunto de monumentos maias que é patrimônio
cultural da humanidade e uma das sete maravilhas do mundo moderno. A
promotora de vendas Mildred Cian, que está todos os dias no parque,
afirma que muitas pessoas perguntam sobre o fim do mundo. “Digo que é
apenas o fim de uma era, mas nem todo mundo se convence”, diz Mildred,
enquanto aproveita para vender, a dois por um, DVDs sobre os maias. As
lojas de recuerdos da região vendem canecas em que o zero do 2012 faz
alusão a um eclipse solar.
Os negócios, claro, vão bem. Mas o que os maias têm a ver com o fim do
mundo? Eles se destacaram pelo conhecimento astronômico e matemático.
Calcularam o tempo de rotação da Terra em torno do Sol com grande
precisão, incluíram o zero em seu sistema de contagem e inventaram
vários calendários. Um deles fixava um ciclo de atividade solar com
duração de 5.125 anos. Eis a origem da festa do apocalipse. Os maias
afirmavam que viviam no Quarto Sol, que começara em 11 de agosto de 3114
a.C. e terminaria em 21 de dezembro deste ano. Com a proximidade da
data, a Nasa, agência espacial americana, começou a receber cartas com
perguntas sobre o que aconteceria. O site da Nasa recebeu mais de 5 mil
mensagens. Era gente dizendo que se suicidaria para não sofrer no dia do
juízo final...
Em meio ao frenesi dos forasteiros, os descendentes dos maias esperam
do seu jeito a chegada do Quinto Sol. Acompanhado do neto, Diego, o
sacerdote Valerio Canche Yah, presidente do Conselho de Anciãos e
Sacerdotes Maias, conduz a cerimônia do kiili’ich’k’á, ou fogo
sagrado, em que faz oferendas aos deuses num sítio arqueológico em
Mérida, capital de Yucatán. O horário, 5 e meia da manhã, já mostra que
aquilo não é para turistas. As orações são todas em maia. A cada 20
dias, tempo de duração do mês maia, o ritual se repetirá, até a chegada
do dia 21 de dezembro. E o que acontecerá nesse dia? “Haverá uma
transformação, tudo já foi previsto”, diz Canche Yah, com uma pontinha
de mistério. Os locais, assim como seus antepassados, só veem o dia 21
como uma virada do calendário, como o 31 de dezembro. Termina um ciclo,
começa outro: uma metáfora de renascimento. Fora do círculo religioso,
os habitantes da região têm preocupações mais práticas. Em Xul, sobram
crianças e velhos na pracinha. Os homens mais jovens foram quase todos
embora dali, não com medo do apocalipse, mas para tentar ganhar algum
dinheiro nos Estados Unidos. Aos que cultivam a tradição maia, a farra
do fim do mundo causa irritação. O professor de língua maia e escritor
Isaac Esaú Carrillo Can diz que “o ano deveria ser da cultura, não do
turismo”. “Não somos peças de museu para que nos observem, mas parte de
um mundo que deve ser conhecido.”
Os estrangeiros têm outra expectativa. A brasileira Mônica de Lima, que
vive em Vitória, Espírito Santo, foi ao México visitar a família de sua
irmã, Sandra Lebrun, e demonstrou preocupação com o futuro. “Não quero
que ela esteja aqui no fim de 2012. A América Central vai sumir do
planeta. Ela tem de sair daqui o mais rápido possível. Temos de buscar
um lugar seguro”, diz Mônica. E o que pensa a irmã? “Tem uma energia
controlando tudo. Haverá uma mudança em outra dimensão, da qual talvez
nem possamos nos dar conta, mas também haverá catástrofes”, afirma
Sandra. “Estou apenas começando uma família”, diz, enquanto abraça o
filho Julien, de 9 anos.
Fugir da terra maia não tem sido a tendência mais popular no
pré-apocalipse. Além da horda de turistas, muitos estrangeiros decidiram
fincar pé ali para se preparar espiritualmente para o espasmo final do
planeta. Um grupo de italianos criou uma minicidade de 800 hectares em
Xul, um vilarejo a 130 quilômetros de Mérida. Xul significa fim na
língua maia. O nome se deve a motivos mais mundanos. Antigamente, a
estrada que corta a região acabava ali. Cerca de 30 casas foram erguidas
com portas duplas, paredes de 60 centímetros de espessura e materiais
especiais para resistir a terremotos, enchentes ou temperaturas
extremas. Os italianos parecem dispostos a desafiar o fim do mundo
plantados em seu epicentro, com a ajuda da engenharia. Parece estranho,
mas o que não é?
O ritual
Os sacerdotes maias Valerio Canche Yah e Tiburcio Can May realizam a cerimônia do fogo sagrado
A comunidade
Os descendentes maias, que levam uma vida simplória, passaram a conviver com vizinhos de fora, dos estrangeiros chegando para resistir ao apocalipse
O comércio
As lojas de recuerdos vendem canequinhas alusivas ao fim do mundo. Fora do circuito turístico, o apocalipse passa longe
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