18 agosto 2011

"As novelas estão dando muito espaço à perversão"

O autor Aguinaldo Silva afirma que os folhetins estão recorrendo gratuitamente à maldade e às mortes e, homossexual assumido, diz por que é contra o projeto de lei que criminaliza a homofobia.
 
 Nos últimos dias, o novelista Aguinaldo Silva tem passado quase 15 horas diante do computador, dando os toques finais nos personagens que criou para a próxima novela das 21h da Rede Globo, “Fina Estampa”, com estreia prevista para a segunda-feira 22. O folhetim irá debater um tema atual, a valorização exacerbada da aparência, e irá discutir até que ponto o visual é mais importante do que o caráter em uma pessoa. Autor de grandes sucessos, como “Senhora do Destino” (2004) e “Duas Caras” (2007), Silva desenvolverá sua nova trama na Barra da Tijuca, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro, onde ele mora em um confortável condomínio fechado. Aos 67 anos, 33 dos quais na Globo, Silva é homossexual assumido e ex-militante da causa gay. Hoje, rechaça a onda do politicamente correto e não apoia o projeto de lei, em tramitação no Congresso Nacional, que criminaliza a homofobia. “Temo quando a gente começa a criar um excesso de leis. E sou contra tudo o que significa ter direitos porque você é inferior”, afirma o autor, que costuma mostrar sua língua ferina em comentários no blog e no Twitter.
Istoé: O sr. acredita na profecia de Macunaíma (lançado por Mário de Andrade em 1928), de um Brasil com heróis sem caráter?
 
Aguinaldo Silva - Sim, o Brasil está pululante de Macunaímas: temos vários heróis sem o mínimo caráter. E o pior é que o povo acredita neles. Basta folhear a revista na qual você trabalha para encontrar todos eles lá, porque são notícia. Pelo lado ruim, mas são. Não vou, claro, citar nomes.

Istoé: Recentemente, o Supremo Tribunal Federal reconheceu o direito de casais homossexuais terem a união estável. O sr. chegou a pensar em se casar depois disso?
 
Aguinaldo Silva -
Não, ao contrário. Depois de passar toda a minha vida vendo como era a vida dos meus amigos heterossexuais casados, eu concluí que aquilo não era para mim. Nem pensar em casar. Foi uma conquista da cidadania, porque estabelece uma igualdade prevista na Constituição. O homossexual vivia um pouco na sombra. Agora, os direitos são iguais.

Istoé: O sr. defende o projeto de lei que criminaliza a homofobia?
 
Aguinaldo Silva - Temo quando a gente começa a criar um excesso de leis. Sou contra cotas, tudo o que significa ter direitos porque você é inferior. Acho que todo mundo tem que subir pelo mérito. Essa lei acaba sendo meio restritiva. Se você sai na rua com camisa em que está escrito “eu sou brancão”, você acaba sendo acusado de racismo. Se você sai com uma camisa “negão”, está tudo bem. 
 
 
Istoé: O bom momento econômico do País vai entrar nessa novela?
 

Aguinaldo Silva - Vai, mas da seguinte maneira: esse é o momento para os empreendedores, para quem tem uma ideia, uma vontade, uma vocação para lutar para que seu sonho se concretize. Uma coisa que me incomodou um pouco nas últimas novelas foi o excesso de perversões gratuitas. Por isso, quero que todos os personagens tenham ocupação, que trabalhem, estudem, tenham objetivos e ambições saudáveis. A gente está precisando um pouco desse otimismo neste momento. Não é essa coisa gratuita de mortes, de maldade pela maldade. Acho que as novelas estão dando muito espaço à perversão.  
 Istoé: 12/08/2011
 
 


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