11 fevereiro 2011

A psicologização do cristianismo como sedução dos últimos dias



2 Timóteo 3.1,2: “Sabe, porém, isto, que nos últimos dias virão tempos difíceis; pois os homens serão amantes de si mesmos...”(Versão Sociedade Bíblica Britânica). 

Tenho refletido muito no chamado evangelho “antropocêntrico” dos últimos dias e buscado evidências práticas que relacionem o evangelho da pós-modernidade ao cumprimento profético das palavras paulinas a Timóteo. É uma realidade tão sutil que o evangelho centrado no homem amante de si mesmo é reproduzido por muitos com tanta reincidência que se torna assombroso pela incapacidade de multidões de discerni a tortuosidade. O evangelho dos amantes de si mesmos é tão esmagador que tiraniza sem que o tiranizado perceba, visto que entorpecido pelo efeito embriagante e prazeroso do ego massageado, da sensação de bem-estar produzida pelo evangelho do aceite-se a si mesmo, mas que no final desemboca em caminhos de morte.

Nas músicas do universo gospel do evangelho da pós-modernidade há uma profusão de exemplos que, a despeito de serem numerosos, são imperceptíveis para muitos. Os adoradores adoram a Deus sem saber que não estão adorando o Criador e erguem às mãos ao alto. São significativos os exemplos de letras cantadas nas igrejas que traduzem bem o espírito do nosso tempo: “É impossível, mas Deus pode mudar o quadro da minha história”; “Uma nova história Deus tem pra mim, um novo tempo Deus tem pra mim”; “Os sonhos que Deus sonhou pra mim”; Deus escreverá novas páginas da minha história, “A minha sorte foi que Deus apostou em mim, acreditou em mim (?); mim, mim, mim, meu, meu, minha, eu, eu, eu... Tento encontrar pelo menos nos salmos base escriturística para tantas canções voltadas para o homem, centradas na criatura cheia de desejos egoístas e materialistas, contudo cantadas como se fosse Deus quem estivesse sendo louvado. Ao invés de erguermos as mãos para o alto, deveríamos apontá-las para nós mesmos, os verdadeiros adorados quando cantamos tais canções: louvores aos sínicos deuses-homens. 

Que relação há entre esse estranho “evangelho” com o Evangelho da cruz que nos ensina: “Então Jesus disse aos seus discípulos: Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mateus 16.24 – NVI)?            

O falso evangelho do aceite-se a si mesmo, antagônico ao verdadeiro Evangelho do negue-se a si mesmo nada mais é do que a cruz psicologizada, externada num “Cristo” trivializado. Não raro pregadores até bem intencionados elaboram seus sermões em torno de teorias psicológicas. Dos púlpitos reverberam expressões como auto-estima elevada, auto-amor ou amor próprio, auto-imagem positiva, auto-gratificação, auto-realização, etc, como necessidades que precisam ser desenvolvidas no homem interior. Já vi isso muitas vezes. São termos da psicologia humanista introjetadas no evangelho como se este não fosse suficiente para resolver os problemas humanos, precisando receber o reforço poderoso de teorias formuladas por humanistas hostis à Palavra de Deus. Durante praticamente 20 séculos a igreja não precisou dos empréstimos da psicologia para salgar e iluminar o mundo, mas agora ela é indispensável. O problema é que em muitos aspectos a psicologia humanista apresenta-se como religião rival ao cristianismo. E você sabe onde se originaram os tantos “autos” supramencionados? Originaram-se no coração do narcisista incorrigível Lúcifer. 

Isaías 14.12-14: “Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da alva! Como foste lançado por terra, tu que debilitavas as nações! Tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono e no monte da congregação me assentarei, nas extremidades do Norte; subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo” (ARA). 

Ezequiel 28.15,17a:Perfeito eras nos teus caminhos, desde o dia em que foste criado até que se achou iniqüidade em ti; Elevou-se o teu coração por causa da tua formosura, corrompeste a tua sabedoria por causa do teu resplendor; lancei-te por terra...” (ARA).



Religião Ego

Ao introduzir, não o ateísmo, mas o politeísmo querendo ser semelhante ao altíssimo, ou seja, igual a Deus, Lúcifer mostra que ninguém teve tanta auto-estima, auto-amor, auto-satisfação e auto-imagem positiva quanto ele próprio. Ao introduzir o “eu quero” para rivalizar com a vontade soberana de Deus, Lúcifer, transformado em Satanás, inaugura a religião ego e introduz esse arsênico na raça humana no Éden ao propor a Eva que se ela comesse do fruto da árvore proibida seria como Deus, conhecedora do bem e do mal. O desejo de ser Deus que permeia tantas religiões encheu o coração do querubim da guarda ungido e posteriormente envenenou a mente humana. 



Ídolo detestável adulado

Curiosa é a nossa relação com o ego. Ao conhecermos o autêntico Evangelho da cruz entendemos que devemos negar esse ídolo detestável, ou seja, negar a nós mesmos. Porém lutaremos contra a carne até recebermos os corpos incorruptíveis, glorificados após o arrebatamento quando o ego será finalmente mortificado. Até lá, com muita freqüência teremos uma relação paradoxal de amor e ódio com esse ídolo interior. Num momento o negamos, em outro o adulamos e o massageamos. Esse ídolo que mata a todos como se estivesse doando vida, que jaz no peito de cada um é o demônio interior de todos os homens, ídolo perante o qual todos nos curvamos, mas que precisa ser rejeitado: o ego, miserável ego que se obstina em rivalizar com a vontade de Deus. E para negá-lo necessitamos seguir o exemplo de Cristo Jesus, tendo em nós o mesmo sentimento que houve nEle que a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo; a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz (Filipenses 2.5-11). Precisamos tomar sobre nós o jugo de Cristo e aprender dele que é manso e humilde de coração e em quem encontramos descanso para nossas almas (Mateus 11.29). Temos que olhar para aquele que desceu do céu não para fazer a própria vontade, mas a vontade daquele que o enviou: o Pai celeste. Que relação há entre auto-estima elevada e auto-amor ou auto-imagem positiva com negar-se a si mesmo, ou seja, negar todo desejo pecaminoso contrário a Deus? Que relação há entre nos esvaziarmos ou sermos mansos e humildes com os termos da psicologia humanista? Nenhum. Nos esvaziamos e nos negamos quando entronizamos Cristo no lugar do ego outrora entronizado no centro de nossas vidas. E só então podemos dizer como o apóstolo Paulo, agora vivo não mais eu, mas Cristo vive em mim



O problema da auto-estima

Nenhum ser humano sofre de baixa auto-estima. Até o suicida tem auto-estima elevada. Por amar tanto a si próprio, entende que não é merecedor de tanto sofrimento e tortura existencial e decide abreviar a sua vida para cessar o sofrimento. A grande prova de que o homem pecador ama tanto a si mesmo é que o segundo grande mandamento de Cristo é: “ame ao próximo como a si mesmo”. Já nos amamos naturalmente, por isso Jesus nos ensinou a dividirmos esse amor com o próximo.

O ser humano pecador não precisa cultivar a auto-estima, pois isso ele já faz naturalmente ao longo de uma vida. Isso se chama egocentrismo. Necessita sim negar essa auto-estima elevada seguindo o exemplo dos heróis da fé.

Paulo disse acerca de si mesmo, reconhecendo sua real condição, que era o principal dos pecadores (1 Timóteo 1.15); um homem miserável, desventurado (Romanos 7.24) e o menor de todos os santos (Efésios 3.8). O profeta Isaías vociferou acerca de si próprio: “ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros” (Isaías 6.5). Paulo exortou os filipenses (e a todos nós) a serem humildes considerando cada um os outros superiores a si mesmos (Filipenses 2.3). E em Romanos 12.3 está registrado para a nossa edificação: Porque, pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um. 

Portanto, conforme as Escrituras o nosso problema não é de baixa auto-estima ou auto-imagem distorcida. O problema básico do homem é a elevada auto-estima, a auto-imagem muito positiva, o amor-próprio, pecado. 

O chamamento de Cristo é para nos esvaziarmos, negar a nós mesmos, que significa dizer negar o ego, e nos humilharmos debaixo da poderosa mão de Deus que nos capacita a sermos humildes como resultado da ação do Espírito Santo na vida de todo aquele que crê. O Espírito gera em nós frutos antagônicos ao ídolo ego.



Confrontando a nova psicoespiritualidade

Muitas igrejas estão concedendo cada vez mais honra e crédito a psicologia. Só as Escrituras não são mais suficientes. Tomam de empréstimos termos da religião rival quando deveriam se despir daquilo que acolheram em seu seio. Para um retorno ao cristianismo bíblico, nós, como igreja, temos que nos purificar das teorias e terminologias da psicologia humanista. Até a vitória em Cristo propagada em muitos púlpitos é a vitória da carne, dos desejos para que bênçãos se transformem em materializações mercantilistas. Fuja! Melhor, combata essa nova psicoespiritualidade disseminada em muitos livros, canções e sermões, travestida de verdadeiro Evangelho sendo realisticamente o falso evangelho psicológico dos amantes de si mesmo, o evangelho desprovido da cruz  centrado no homem e não em Cristo. Fuja dos sermões psicologizados elaborados para agradar e massagear o ego, garantindo igreja cheia mas afastando a todos os ouvintes não-bereanos e não-salvos da verdade que liberta. 

O humanismo e a Palavra de Deus excluem-se mutuamente. Profeticamente falando, a “psicologia cristã” coopera para a formação da igreja apóstata e para a futura religião do anti-Cristo. Ela não é para aqueles que têm a mente de Cristo que sabem que a felicidade não habita na auto-estima como ensina a psicologia, mas em Cristo, autor e consumador da nossa fé.
 
Por Sandro Moraes

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