04 fevereiro 2011

A Importância da Reflexão na Igreja



Venham, vamos refletir juntos, diz o Senhor”. (Isaías 1:18 NVI)

A Bíblia Sagrada relata que Deus nos criou segundo Sua imagem e conforme Sua semelhança. Nós, seres humanos, somos dotados de alguns atributos especiais que nos foram comunicados por Deus no ato da criação. Temos em nós, portanto, uma pequena centelha daquilo que Deus tem em plenitude.

O principal destes atributos que nos foi comunicado por Deus é a capacidade de raciocinar e, quanto a isso, não há dúvidas, afinal, todos os atributos que nos tornam diferentes dos animais estão ligados ao raciocínio: livre-arbítrio, criatividade, percepção, capacidade de análise, etc. O ato de raciocinar possui uma importância muito grande dentro do nosso dia a dia e é impossível existir um relacionamento com Deus sem que haja reflexão.

A filosofia é a ciência que trata da reflexão em primeira ordem, ou seja, o tema principal que a filosofia aborda é o pensamento e suas várias formas. Umas das melhores definições de filosofia que já li é: “a tentativa de pensar racionalmente e criticamente sobre as questões mais importantes da vida, a fim de obter-se o conhecimento a sabedoria a respeito delas” (Moreland & Craig, 2005).

A filosofia exerceu um papel muito importante na história da Igreja. Homens como Policarpo, Irineu e Tertuliano usaram da filosofia e desenvolveram pensamentos sólidos contra a então ascensão gnóstica dentro do cristianismo. Agostinho, o mestre de Hipona, através do pensamento filosófico, fundou importantes alicerces para a ainda imatura fé cristã, respondendo com sabedoria acerca de assuntos ainda não definidos como a Salvação pela Graça e Trindade.

Alguns pensadores cristãos são lembrados e respeitados até hoje entre não-cristãos como: Tomás de Aquino, Anselmo de Cantuária, João Calvino, Blaise Pascal, Sören Kierkegaard, etc.

Os livros de história nos mostram que no século IV, os debates sobre Trindade e divindade de Cristo faziam parte do cotidiano dos simples camponeses que viviam ansiosos para ouvir os resultados dos debates teológicos e concílios. O quadro atual é bem diferente. Pouco a pouco, a filosofia tem sido extinguida do cristianismo a ponto de não se pensar mais dentro da Igreja. O teólogo R. C. Sproul (editor da Bíblia de Genebra) disse, e com razão, que vivemos no período mais anti-intelectual que a Igreja já vivenciou.

Não é raro ver cristãos abandonarem a fé após ingressarem na Universidade. Qual a razão disso? Na Universidade eles são confrontados e questionados diariamente em suas disciplinas. Na Igreja, no entanto, os cristãos aprendem a ter medo de pensar.

Sim, é verdade. Quer fazer um teste? Ouse questionar alguma ação de seu pastor. Você será tachado de insubmisso, será afastado dos cargos que exerce na congregação e talvez te proíbam de participar da Santa Ceia. Para justificar tal ato apresentaram alguma abordagem bíblica fora de contexto e soltam aqueles famosos jargões do tipo “não toque no ungido do Senhor”.

Em congressos de medicina, administração ou economia os participantes debatem fervorosamente sobre os assuntos em pauta, concordando e discordando, buscando o crescimento em suas respectivas áreas. No cristianismo acontece o oposto, ninguém discorda, todos concordam com tudo.

A Igreja pode dizer amém?

A infeliz realidade é que a liderança cristã nos ensina a não pensar. Os crentes crescem com medo de questionar, medo de pensar e medo de expor suas opiniões. Os cristãos são incentivados por sua liderança a limitar sua leitura apenas a livros devocionais ou de batalha espiritual sensacionalista. Muitos consideram a ciência como obra demoníaca por não conseguir acompanhar racionalmente os avanços dela.

É interessante observarmos as crianças. Elas não têm medo de pensar. Os pequeninos são verdadeiros desbravadores do conhecimento. Talvez seja essa uma das razões de Jesus ter dito que o Reino dos Céus pertence a elas. Elas têm ânsia de conquistar mais e mais conhecimento.

Já pararam para perceber como as crianças nos primeiros anos de vida gostam de acender e apagar a luz? Já perceberam como elas gostam de olhar para o espelho? Como gostam do barulho do molho de chaves? Como gostam de animais?

Uma criança descobre que ao apertar certo botão algo estranho acontece, surge uma luz. Uma sensação extasiante para ela. Com isso ela começa a aguçar os sentidos, a percepção.

Deus nos criou para pensar, para desenvolvermos nossa capacidade de raciocínio. As crianças demonstram isso pois ainda não tiveram este sentimento podado. Eu me recordo de que minha primeira reflexão teológica aconteceu quando eu ainda era criança. Minha mãe estava contando as histórias da Bíblia para eu e meus irmãos quando eu perguntei: “mãe, depois que Deus destruiu o mundo com a chuva ele prometeu que não destruiria mais a humanidade, por que então ele destruiu Sodoma e Gomorra?”. Não me lembro ao certo qual idade tinha, mas é certo que não devia ter mais que 6 anos.

Os pais não precisam se iludir. Tudo o que ensinam aos filhos será questionado cedo ou tarde. A forma como ela vai desenvolver aquilo que você ensinou vai definir se ela mudará ou não de pensamento. As crianças questionam toda informação que recebem. Seja em casa, seja na Igreja, seja na escola ou qualquer lugar.

É necessário que nós mudemos nosso conceito sobre o papel da reflexão dentro da Igreja. É necessário não temer. Se nós acreditamos que nosso Deus é onisciente e que ele transmitiu racionalmente tudo a nós através da Bíblia, não devemos temer questionamentos. Devemos ser a resposta que o mundo espera e não fugir das perguntas do mundo.

Penso, logo existo” dizia Descartes. Se pararmos de pensar, deixaremos de existir.

Venham, vamos refletir juntos...


Eliel Vieira

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