
TEXTO ÁUREO
“Não admitirás falso rumor e não
porás a tua mão com o ímpio, para seres testemunha falsa” (Êx 23.1)
Verdade Prática
O nono mandamento proíbe a
mentira, o mexerico e o testemunho falso contra o próximo tanto no dia a dia
como nos tribunais.
INTRODUÇÃO
O
puritano Thomas Brooks (1608–1680) disse que “nós conhecemos os metais pelo som
que produzem e os homens por aquilo que falam!”. Jesus disse que “a boca fala
do que está cheio o coração” (Mt 12.34). As palavras que saem da boca de um
homem são uma expressão bem clara de quem ele é de fato. Deus se preocupa muito
com as palavras que saem da nossa boca, por isso nos deu o nono mandamento –
“Não dirás falso testemunho contra o teu próximo”.
QUAL É O SIGNIFICADO DO NONO
MANDAMENTO?
O nono mandamento é mais uma maneira de expressarmos amor ao
nosso próximo; neste caso, preservando a sua honra por meio de nossas palavras.
Isso fica claro nos catecismos reformados1 que interpretaram o mandamento como
uma maneira de conservar e promover a verdade entre todos os homens. O Catecismo Maior de
Westminster, por exemplo, traz uma bela definição de seu
significado na resposta à pergunta 144:
…
conservar e promover a verdade entre os homens e a boa reputação do nosso
próximo, assim como a nossa; evidenciar e manter a verdade, e de coração,
sincera, livre, clara e plenamente falar a verdade, somente a verdade, em
questões de julgamento e justiça e em todas as coisas mais, quaisquer que
sejam; considerar caridosamente os nossos semelhantes;
amar,
desejar e ter regozijo pela sua boa reputação; entristecer-nos pelas suas
fraquezas e encobri-las, e mostrar franco reconhecimento dos seus dons e
graças; defender sua inocência; receber prontamente boas informações a seu
respeito e rejeitar as que são maldizentes,
lisonjeadoras
e caluniadoras; prezar e cuidar de nossa boa reputação e defendê-la quando for
necessário; cumprir as promessas lícitas; empenhar e praticar tudo o que é
verdadeiro, honesto, amável e de boa fama.
O
nosso Deus é a Verdade (Jo 14.6) e ele “não pode mentir” (Tt 1.2), pois ele
“não é homem para que minta” (Nm 23.19). Ele espera que, como seus filhos, a
verdade flua de nossas bocas e não o engano. Assim como parte de um código
simples e prático, divinamente estabelecido, a observância do nono mandamento
contribuirá para a harmonia no convívio social.
Em
resumo, ninguém deve causar dano ao próximo por meio de palavras proferidas por
sua boca, antes, deve fazer uso de sua língua para falar o bem e a verdade para
todos.
PROIBIÇÕES DO NONO MANDAMENTO
- A mentira
A
mentira surgiu bem cedo na história da humanidade. Satanás, pai da mentira (Jo
8.44), no Éden, disse a primeira mentira registrada na Bíblia. Primeiro com uma
indução (“É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?”, Gn
3.1) e depois com a mentira propriamente dita (“É certo que não morrereis”, Gn
3.4). Os nossos primeiros pais caíram em pecado justamente por não acreditarem
nas palavras de Deus e sim nas mentiras proferidas pelo diabo.
A
mentira não deve fazer parte da vida dos filhos de Deus. Ele ordenou: “…nem
mentireis, nem usareis de falsidade cada um com o seu próximo” (Lv 19.11). “Os
lábios mentirosos são abomináveis ao SENHOR” (Pv 12.22). Temos de abominar e
detestar a mentira (Sl 119.163), rogando ao Senhor que a afaste de nós (Pv 30.8).
O
nosso compromisso é com a verdade, por isso, “não mintais uns aos outros, uma
vez que vos despistes do velho homem com os seus feitos” (Cl 3.9; cf. Ef 4.25).
- Juízos falsos e calúnias
Não devemos prejudicar a boa reputação do nosso
próximo com juízos falsos, especialmente em público. Em Levítico 19.15, lemos:
“Não farás injustiça no juízo: nem favorecendo o pobre, nem comprazendo ao
grande: com justiça julgarás o teu próximo”. Esse mandamento nos alerta para a
cautela com a qual devemos abrir a nossa boca para nos referir ao nosso
próximo. Devemos ter cuidado redobrado ao denunciar alguma pessoa, pois não
podemos ajudar a condenar alguém levianamente, ainda mais sem o ter ouvido
primeiro. Deus não deixará impunes os caluniadores. Essa verdade é reiterada no
livro de Provérbios: “A falsa testemunha não fica impune, e o que profere
mentiras não escapa” (Pv 19.5). Deus abomina a “testemunha falsa que profere
mentiras e o que semeia contendas entre irmãos” (Pv 6.19). O verdadeiro homem
de Deus “… não difama com sua língua, não faz mal ao próximo, nem lança injúria
contra o seu vizinho” (Sl 15.3).
- Boatos falsos, fofocas, tagarelices
Todo
tipo de boatos sem fundamento, fofocas e conversas infrutíferas sobre alguém
que visam prejudicar a reputação do próximo são formas de quebrar o nono
mandamento. A Escritura alerta: “Irmãos, não faleis mal uns dos outros” (Tg
4.11). Em outro lugar, ordena: “não difamem a ninguém, nem sejam altercadores,
mas cordatos, dando provas de toda cortesia, para com todos os homens” (Tt
3.2). Salomão disse que “o homem perverso espalha contendas, e o difamador
separa os maiores amigos” (Pv 16.28).
Em
Levítico, lemos: “não andarás como mexeriqueiro entre o teu povo; não atentarás
contra a vida do teu próximo” (Lv 19.16). Não nos enganemos, “as más
conversações corrompem os bons costumes” (1Co 15.33). Quanto mais a nossa boca
se abre para falar coisas contra o próximo, mais destruímos a eles e a nós
mesmos. Devemos tomar muito cuidado com as conversas que temos uns com os
outros. Quais são as palavras que provém da nossa boca quando estamos falando
do nosso próximo?
- Insultos, xingamentos, maledicências
Outra
maneira de destruir a imagem do próximo diante das pessoas é por meio de
insultos. Quanto a isso, note as palavras de Jesus no sermão da montanha: “…
todo aquele que [sem motivo] se irar contra seu irmão estará sujeito a
julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento
do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo” (Mt
5.22). Nesse texto vemos a importância que o nosso Salvador dá a nossa maneira
de falar uns com os outros. Ele proíbe o insulto, pois ele é figuradamente uma
forma de assassinar um indivíduo.
Jesus faz referência a um insulto comum naquela época, que foi
traduzido para o português por “tolo”. A palavra original é racá. Essa
expressão traduz todo o espírito do insulto, pois significa dizer que o outro é
um “nada”. Pare, pense e analise se todos os palavrões de hoje em dia não se
baseiam nesta intenção: dizer que o outro não vale nada. Sem dúvida isso se
encaixa no que é conhecido como bullyng,
isto é, qualquer ato de violência física ou psicológica intencional e repetido
por uma ou mais pessoas gerando dor e sofrimento em outra pessoa.
- Falsidade e falsos profetas
A
falsidade é a característica do hipócrita, daquele que finge que algo
aconteceu, tanto para o bem como para o mal de alguém. No salmo 12.2,
percebemos que realmente existem duas maneiras de praticar a falsidade: “Falam
com falsidade uns aos outros, falam com lábios bajuladores e coração fingido”.
Neste sentido, Deus condena tanto os que mentem para depreciar a reputação do
próximo quanto os bajuladores.
De
acordo com a Bíblia, podemos falsificar até a nós mesmos diante de Deus. Um
exemplo disso é a oração do fariseu, ilustrada por Jesus em Lucas 18.11: “O
fariseu, posto em pé, orava de si para si mesmo, desta forma: Ó Deus, graças te
dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem
ainda como este publicano”. Esse é um caso no qual há falsidade tanto na oração
a Deus quanto na depreciação do próximo.
Por
fim, a Bíblia dedica muita atenção para um tipo de testemunho falso, o dos
falsos profetas. Eles não apenas estão enganando as pessoas com as suas
palavras mentirosas, estão tentando enganar o próprio Deus, falando o que Deus
não falou. Observe a conversa que Jeremias tem com Deus sobre os falsos
profetas:
Então,
disse eu: Ah! SENHOR Deus, eis que os profetas lhes dizem: Não vereis espada,
nem tereis fome; mas vos darei verdadeira paz neste lugar. Disse-me o SENHOR:
Os profetas profetizam mentiras em meu nome, nunca os enviei, nem lhes dei
ordem, nem lhes falei; visão falsa, adivinhação, vaidade e o engano do seu
íntimo são o que eles vos profetizam. Portanto, assim diz o SENHOR acerca dos
profetas que, profetizando em meu nome, sem que eu os tenha mandado, dizem que
nem espada, nem fome haverá nesta terra: À espada e à fome serão consumidos
esses profetas (Jr 14.13-15).
III. DEVERES EXIGIDOS PELO NONO
MANDAMENTO
- Amar e falar a verdade
Uma
maneira de evidenciar nossa obediência a Deus quanto ao nono mandamento é amar
sempre a verdade. A carta aos Coríntios nos lembra de que o amor “não se alegra
com a injustiça, mas regozija-se com a verdade” (1Co 13.6). Quem ama de fato a
Deus e ao próximo como a si mesmo deve ter sua real satisfação em falar a
verdade.
Devemos
falar a verdade porque somos um único corpo, isto é, membros uns dos outros.
Mentir para o próximo é mentir para nós mesmos, é autoengano. Logo, falar a
verdade é estar cada vez mais íntimo do meu próximo e mais pessoalmente lúcido.
“Por isso, deixando a mentira, fale cada um a verdade com o seu próximo, porque
somos membros uns dos outros” (Ef 4.25).
Temos
a responsabilidade de pensar muito bem na hora de escolher nossas palavras.
Nenhuma torpeza deve estar em nossa língua, mas sempre palavras que irão
transmitir a verdade e a graça de Deus para as pessoas. “Não saia da vossa boca
nenhuma palavra torpe, e sim unicamente a que for boa para edificação, conforme
a necessidade, e, assim, transmita graça aos que ouvem” (Ef 4.29).
Falar
a verdade como um hábito é um sinal de que realmente Jesus Cristo nos salvou
dos nossos pecados e o seu Espírito habita em nós, pois ele é a própria
Verdade. O apóstolo diz: “Não mintais uns aos outros, uma vez que vos despistes
do velho homem com os seus feitos e vos revestistes do novo homem que se refaz
para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou” (Cl 3.9-10).
Jesus
também diz no sermão do monte que o discípulo deve ter postura e falar sempre a
verdade: “Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar
vem do maligno” (Mt 5.37). Temos glorificado a Deus falando as suas verdades
uns com os outros?
- Zelar pela boa reputação do próximo
Como nós podemos zelar pela reputação do nosso próximo?
Parafraseando o Catecismo
Maior de Westminster, devemos “amar, desejar e ter regozijo pela
reputação deles. Ficarmos tristes pelas suas fraquezas e tentarmos encobri-las.
Devemos
sempre reconhecer os seus dons e graças oferecidos por Deus, defender sua
inocência e receber prontamente boas informações a seu respeito, rejeitando as
que são maldizentes”.
Muitas
vezes somos velozes para espalhar as falhas dos outros, mas lentos para
promover as suas boas obras. Em Romanos 1.8, lemos que Paulo tomou conhecimento
e se alegrou pelo estado da igreja de Roma, porque em todo o mundo era
proclamada a fé dos cristãos romanos. Na mesma carta o apóstolo ensina que
devemos nos “alegrar com os que se alegram” (Rm 12.15).
Paulo
alegrou-se com os tessalonicenses, em como eles se tornaram o modelo de fé para
as igrejas da Macedônia e da Acaia, pois “por toda parte se divulgou a vossa fé
para com Deus” (1Ts 1.8). Os crentes das regiões citadas proclamavam a fé dos
tessalonicenses e isso encheu de alegria o coração de Paulo. Da mesma maneira,
nós devemos proclamar as virtudes uns dos outros, pois assim queremos que se
faça conosco.
Além
disso, defender os irmãos quando sofrem injustiças, é outra maneira de obedecer
ao nono mandamento. Somos chamados a defender a verdade de Deus, a defendermos
uns aos outros e não nos calarmos diante de mentiras que proferirem contra nós,
em especial contra a igreja de Cristo.
Jesus
transparece a prática de zelar pela reputação dos nossos irmãos quando nos
ensinou a corrigir um irmão em pecado: “Se teu irmão pecar contra ti, vai
argui-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão” (Mt 18.15).
Não devemos expor os pecados dos irmãos, a menos que eles permaneçam no pecado,
impenitentes, e, mesmo assim, somente após duas tentativas sem sucesso. Será
que é um hábito nosso falar das boas obras uns dos outros ou apenas das falhas?
- Domínio próprio
Uma
das virtudes cristãs que mais está relacionada ao nono mandamento é o domínio
próprio (Gl 5.23). Quando Cristo faz habitação em nós, nosso corpo passa a ser
dirigido por ele, principalmente a nossa língua. O novo elemento que o cristão
recebe de Deus para lidar com a sua língua é exatamente o poder de
autocontrole.
Tiago
mostra a dificuldade que o homem tem de dominar a sua língua: “… a língua,
porém, nenhum dos homens é capaz de domar; é mal incontido, carregado de veneno
mortífero” (Tg 3.8). No entanto, ele também diz que não há razão para o cristão
desobedecer ao nono mandamento. A figueira não produz azeitonas, a videira não
produz figos e a fonte de água doce não jorra água salgada (Tg 3.12). Por meio
dessas figuras, ele conclui que o cristão regenerado pode, sim, domar a sua
língua. Caso contrário, como é possível com uma boca bendizermos a Deus e com a
mesma boca amaldiçoarmos os homens, criação de Deus? Ou fazemos uma coisa ou
outra. Vamos pensar sobre isso. Temos conseguido domar a nossa língua?
CONCLUSÃO
O
nono mandamento deve orientar todas as relações possíveis que tivermos com o
nosso próximo, no tocante à verdade e às palavras. Da mesma maneira, como
muitos usam a língua para amaldiçoar, Deus deseja usar a nossa boca para
alcançarmos as nações com o evangelho. A nossa missão como cristãos é
essencialmente executada por meio de palavras. Que as lições aprendidas sobre o
nono mandamento nos auxiliem na vida cotidiana, com todas as pessoas ao nosso
redor. Que realmente aprendamos a glorificar a Deus e alcançar o coração das
pessoas com nossas palavras.
SUBSÍDIO PARA O PROFESSOR
INTRODUÇÃO
O nono mandamento tem conexão com o terceiro, visto que
ambos enfocam o falar a verdade. A proibição primária aqui diz respeito a uma
declaração falsa num processo legal. Isso pode ser visto tanto na linguagem e
de maneira mais enfática em alguns dispositivos legais do sistema mosaico, como
veremos no presente estudo. A construção "Não dirás falso testemunho
contra o teu próximo" é exatamente a mesma nos textos de Êxodo e
Deuteronômio (êx 20.16; Dt 5.20); no entanto, essas palavras no texto hebraico
apresentam diferença, mas nada que mude o sentido da mensagem que o mandamento
transmite.
“Não dirás falso testemunho contra o teu próximo (20,16). O
mandamento inclui testemunho dado em tribunal, mas vai além disso. Falso
testemunho é qualquer declaração maliciosa intencionada a degradar ou ferir
outra pessoa, A reputação dos outros, assim como suas propriedades, devem ser
resguardadas por todos.
Parecido com o abuso de um irmão por meio do roubo é
desonrá-lo dando falso testemunho contra ele (Êx 20.16). Embora a proibição
possa ser legitimamente aplicada à mentira em geral, a linguagem técnica
(“falso testemunho”; hebraico, 'edsãqer) sugere um cenário legal ou de corte no
qual um caso concernente a um crime ou contravenção está sendo julgado. As
testemunhas eram (e são) essenciais na determinação da culpa ou da inocência
(cf. Dt 17.6,7; 19.15), mas pessoas chamadas para testemunhar devem dizer a
verdade sobre o que viram ou ouviram. Fazer menos que isso e, assim, incriminar
uma parte inocente e sujeitá-la ao malogro da justiça infringiria gravemente a
liberdade, as posses e possivelmente até mesmo a vida dela. Mais uma vez, a
repercussão na estrutura bem ordenada de administração do Reino é óbvia e
prejudicial.
I. O NONO MANDAMENTO
1. ABRANGÊNCIA.
O mandamento não se restringe apenas aos tribunais. O
contexto mostra que ele se refere também às palavras que usamos. Trata-se da
responsabilidade pessoal de cada um falar a verdade. Disse John Stott: Este
mandamento não é somente válido nas cortes de justiça. Se bem que inclui o
perjúrio, também estão implícitas todas as formas de escândalo e maledicência,
toda a conversação ociosa e charlatanice, todas as mentiras e os exageros deliberados
e as meias verdades que distorcem a verdade. Estamos proferindo falso
testemunho quando aceitamos certos rumores maliciosos e logo os transmitimos,
ou quando os usamos para outra pessoa para a prejudicar criando impressões
falsas, ou quando não corrigimos afirmações falsas, tanto por nosso silêncio
como por nosso discurso.
O mandamento condena pelo menos quatro aspectos na vida
humana: o falso testemunho no tribunal, a calúnia pessoal, o falar da vida
alheia e a bajulação. Israel era um estado teocrático e, por não haver
separação entre estado e religião, a ordem "Não dirás falso testemunho
contra o teu próximo" envolvia todo o aspecto da vida do israelita.
Trata-se da necessidade de cada um falar a verdade (Lv 19.11), pois o Senhor
Jesus disse que o diabo é o pai da mentira (Jo 8.44).
Lev 19.16 Este versículo apresenta ramificações do nono
mandamento, que exige veracidade.
O próximo, contra quem não devemos iniciar nenhuma campanha
de mexericos, é aqui um compatriota hebreu. Jesus, entretanto, ampliou a
aplicação disso a todos os nossos semelhantes (ver Luc. 10.29 ss.). Cf. Êxo.
23.4,5. Nos vss. 33 e 34 deste capítulo, o conceito de “próximo” inclui os
forasteiros.
“Não deve haver campanhas de maledicência (vss. 16-18). Não
devemos tentar fazer o próximo cair em dificuldades. Devemos tratar com ele face
a face, em espírito de boa-vontade. Nunca deveríamos dizer: ‘Sou o guardador de
meu irmão?' conforme fez Caim. Deveríamos estar genuinamente interessados pelo
bem-estar temporal e espiritual de outras pessoas, como se fosse nosso mesmo.
Por quê? Eu sou o Senhor. Essa é, de fato, a ordem sagrada, física e moral, que
deve haver neste mundo” .
A maledicência geralmente termina em calúnia. Isso torna-se
um hábito extremamente perigoso no caso de certas pessoas, e as mulheres, especialmente,
deleitam-se nesse vício. E assim, vidas inocentes são destruídas. Ver I Sam.
22.9,18; Eze. 22.9. A versão caldaica, de acordo com o Targum de Jonathan, diz
aqui: “Não seguirás a língua três vezes amaldiçoada, pois ela é mais fatal do
que a espada devoradora de dois fios”.
Lv 19.16 Nós somos proibidos de fazer qualquer coisa
ofensiva ao bom nome do nosso próximo (v. 16), seja: 1. Nas conversas comuns:
“Não andarás como mexeriqueiro entre o teu povo”. É uma má posição aquela em
que o homem se coloca ao divulgar os erros de seus semelhantes, dando a
conhecer aquilo que era segredo, agravando crimes e usando da pior maneira
aquilo que estava errado, com o desejo de destruir a reputação dos homens e
semear a discórdia entre vizinhos. A palavra usada para “mexeriqueiro”
significa vendedor ambulante, ou pequeno vendedor. Os mexeriqueiros são aqueles
que se intrometem nos negócios. Pois eles apanham histórias perversas em uma
casa e as divulgam em outra, e normalmente trocam calúnias. Veja este pecado
condenado, Provérbios 11.13; 20.19; Jeremias 9.4,5; Ezequiel 22.9. 2. Ao dar
testemunho: “Não te porás contra o sangue do teu próximo”, se o seu sangue foi’
inocente, nem te aliarás com homens sanguinários como os descritos em
Provérbios 1.11,12. Os doutores judeus dão este sentido adicional: Não deverás
ficar assistindo o teu irmão em perigo, mas deverás vir em seu socorro, embora
isto possa representar perigo à sua própria vida, ou a algum membro do seu
corpo. E acrescentam: Aquele que pode, com o seu testemunho, inocentar alguém
que é acusado, é obrigado, por esta lei, a fazê-lo. Veja Provérbios 24.11,12.
Lv 19.16 — O mexeriqueiro não era apenas um fofoqueiro, mas
um caluniador, aquele que almejava destruir a reputação de outrem. Em relação
ao mandamento não te porás contra o sangue do teu próximo, muitos casos podem
ser incluídos aqui. No contexto do julgamento, citado nesta seção,
possivelmente estava em maior evidência o falso juramento, que ocasionaria a
morte do acusado, ou o testemunho que exoneraria o réu.
2. OBJETIVO
Em linhas gerais, temos aqui a defesa da honra. Falar a
verdade é para todos os povos e em todas as épocas. Mas, no sistema mosaico, o
mandamento se distingue por ser revelação e por isso mesmo se reveste de
autoridade divina. O mandamento é citado no Novo Testamento e foi resgatado
pela graça e adaptado à graça. A fé cristã leva o tema para além dos tribunais,
pois pertence à esfera espiritual, envolvendo a salvação, ao passo que na lei o
seu aspecto é mais jurídico visando manter o equilíbrio na sociedade.
Dt 19.20 ... O ouçam e temam. Aqueles que sobrevivessem ao
incidente (como a familia do homem que tinha cometido perjúrio), bem como a
população em geral, que ouvisse falar sobre o caso, temeriam, desencorajando o
crime de perjúrio. E embora isso não eliminasse o mal das testemunhas falsas,
essa prática odiosa ficaria grandemente reduzida.
Dt 17.13 Neste versículo vemos a severidade da lei. Não se
hesitava em executar até mesmo um juiz local, que não cumprisse o que se tinha
considerado reto. Essa execução agiria como uma medida preventiva, capaz de
fazer todo o povo de Israel temer. Em Israel, a justiça era imediata e
terrível. Isso pode ser contrastado com nossos sistemas modernos, que podem
envolver anos para que um simples caso de homicídio seja julgado. “Isso fazia o
império da justiça tornar-se dotado de máxima importância na Terra Prometida,
ajudando a impedir a anarquia”.
E jamais se ensoberbeça. No hebraico, essa palavra é zadown,
que significa “de maneira arrogante”, “de maneira orgulhosa”. A medida
disciplinar humilharia os homens e fá-los-ia temer.
Deveria haver grande cuidado no julgamento, v. 18. Deveria
ser feita uma investigação diligente quanto ao caráter das pessoas, e todas as
circunstâncias do caso. Tudo isto devia sei' comparado, para que a verdade
pudesse ser descoberta. Quando a investigação fosse realizada de um modo fiel e
imparcial, eles poderiam esperar que a Providência os auxiliasse.
(5) Se ficasse evidente que um homem tinha, conscientemente
e perversamente, dado falso testemunho contra seu próximo, embora o mal que lhe
desejava não tivesse sido realizado, este deveria sofrer a mesma penalidade à
qual seu próximo estaria sujeito, devido à sua evidência, v. 19. Nec lex
estjustior idla - Nenhuma lei poderia ser ma is justa. Se o crime do qual ele
acusasse seu próximo devesse ser punido com a morte, também o homem que deu
falso testemunho deveria ser condenado à morte. Se a punição fosse açoitamento,
ele deveria ser açoitado. Se fosse uma multa financeira, ele deveria ser
multado também. E, como para aqueles que não levassem em consideração a
atrocidade do crime e a necessidade de impedi-lo, pareceria ser uma punição
muito dura, por ter dito algumas palavras, especialmente quando nenhum mal
tinha, realmente, sido feito, aqui está acrescentado: “O teu olho não poupará”,
v. 21. Nenhum homem precisa ser mais misericordioso do que Deus. O benefício
que resultará, para o público, desta severidade, a recompensará com abundância:
“Para que os que ficarem o ouçam, e temam”, v. 20. Tais punições exemplares
seriam advertências a outros, para que não empreendessem nenhuma maldade deste
tipo, quando vissem como aquele que fez a cova e a escavou havia caído nela.
Dt 19.16-20. O caso da testemunha maliciosa (lit.
“testemunha de violência”, i.e. seu testemunho levaria a um ato de violência) é
agora discutido. Quando tal testemunha declarava que o acusado era culpado de
um ato errado (lit. “desvio”, i.e. deserção, apostasia ou má conduta moral ou
religiosa), as duas partes em litígio tinham que comparecer perante Javé para
responder aos sacerdotes e juízes que estivessem oficiando na ocasião. o
tribunal localizado no santuário central parece ser o que se tem em vista nesta
passagem (cf. 17: 8-13). Depois de cuidadoso exame os juízes (provavelmente
todo o grupo de sacerdotes e juízes) dariam o veredito. Se a testemunha fosse
falsa receberia o castigo que se tencionava dar ao acusado. Desta maneira o mal
seria “queimado” (exterminado) de Israel e o perjúrio desestimulado.
3. CONTEXTO
JUIZ, O Um juiz ou magistrado civil é mencionado pela
primeira vez em Israel sob a liderança de Moisés, quando Jetro sugeriu que
juízes fossem designados para aliviar Moisés em suas responsabilidades
administrativas (Êx 18.13-26). Mais tarde, Israel se organizou em unidades
dentro de cada tribo com um homem qualificado como juiz. Estes homens deveriam
julgar corretamente, destemidamente e imparcialmente (Dt 1.16ss.). Somente os
casos mais importantes eram trazidos diante de Moisés (Dt 1.12-18; 21.2).
Observe também a organização de Israel em Números 1-10. Sob a liderança de
Josué um plano similar foi seguido (Dt 16.18-20; 17.2-13; 19.15-20; Js 8.33;
23.2; 24.1; 1 Sm 8.1). A era que se seguiu à morte de Josué retrata uma
situação modificada como é descrito no livro de Juízes. Aqui os líderes
principais, ou juízes do povo, eram aqueles que tinham primeiramente a missão
de livrar os israelitas das nações opressoras (Jz 2.16). Carismaticamente
dotados pelo Espírito de Deus, eles eram "libertadores" (Jz 3.9),
capacitados a livrar e preservar Israel (Jz 6.34-36).
A palavra heb. shopet traduzida como "juiz" parece
ter sido um termo emprestado dos cananeus. Ela aparece na literatura ugarítica
como spt com o sentido de "governante" ou "juiz" e um
sinônimo para "rei". Posteriormente, os principais magistrados de
Cartago, descendentes dos fenícios ou cananeus, possuíram este título por
séculos, e eram conhecidos dos romanos como sufetes. Assim, o termo heb.
corretamente inclui o conceito de líder bem como o de árbitro. Durante a era
entre a conquista e a monarquia em Israel, os invasores opressores foram
sucessivamente mesopotâmios, moabi-tas, cananeus, midianitas, amonitas e
filisteus. Os notáveis juízes que foram usados para agir contra estes foram
Otniel, Eúde, Débora e Baraque, Gideão e Sansão, conforme narrado no livro de
Juízes. Outros juízes a respeito dos quais pouca informação está disponível
foram Sangar, Abimeleque, Tola, Jair, Ibsã, Elom e Abdom. Veja mais informações
sobre cada um deles nos tópicos que trazem os seus nomes, individualmente.
Alguns dos juízes desta era são mencionados no livro de Hebreus (cap. 11) como
heróis da fé. Os capítulos iniciais de 1 Samuel (cf. 4.18) indicam que Eli
serviu como juiz de Israel por 40 anos. Samuel não só guiou os israelitas em
uma resistência bem sucedida à opressão dos filisteus, mas também estabeleceu
um organizadotribunal itinerante. Embora ele tenha designado seus filhos
como juízes, as condições em mudança marcaram uma transição para um reino
organizado que trazia a necessidade da unção de um rei (1 Sm 7.15-8.5). Durante
a monarquia, o rei se tornou o supremo juiz em assuntos civis (2 Sm 15.2; 1 Rs
3.9,28). Os casos eram julgados pelo rei no portão do palácio (1 Rs 7.7), mas
os tribunais locais estavam da mesma forma em funcionamento. Davi atribuiu aos
levitas o ofício judicial e designou 6.000 homens como oficiais e juízes (1 Cr
23.4; 26.29). Josafá ampliou o sistema judicial em Judá, designando sacerdotes
e juízes em cidades fortificadas com uma suprema corte em Jerusalém, onde as
questões religiosas estavam sujeitas aos sacerdotes e as questões civis
sujeitas ao príncipe de Judá (2 Cr 19.5-8). Os profetas frequentemente
afirmavam que a justiça estava corrompida pelo suborno e pelos falsos
testemunhos (Is 1.23; 5.23; 10.1; Am 5.12; 6.12; Mq 3.11; 7.3). Os reis eram
frequentemente injustos em seu modo de tratar os profetas que falavam da parte
de Deus (1 Rs 22.26,27; 2 Rs 21.16; Jr 36.26). Veja também 1 Reis 21.1-13, onde
a lei era desconsiderada por Acabe e Jezabel e falsas testemunhas eram usadas
para trazer vantagens ao rei.
1. As Palavras Originais e seus Significados. A palavra
hebraica para «juiz» é shaphat. Ocorre por cento e dezoito vezes no Antigo
Testamento, desde Gên. 16 até Miq. 4:3. O termo grego é kritês. Esse
substantivo ocorre por dezoito vezes no Novo Testamento: Mat. 5:25; 12:27; Luc.
11:19; 12:14,58; 18:2,6; Atos 10:42; 13:20; 18:15; 24:10; II Tim. 4:8; Heb.
12:23; Tia. 2:4; 4:11,12 e 5:9.
Além de designar os indivíduos que tomam decisões sobre
questões civis e religiosas, as palavras envolvidas falam sobre a tentativa de
determinar causas (ver Êxo. 18:13). Entre os povos, as decisões judaicas são
anunciadas de várias maneiras. Os juízes de Israel faziam-no verbalmente: «Tu
és culpado!» ou «Tu és inocente!» Entre os romanos, marcava-se alguma espécie
de material, como um tablete de argila ou um pedaço de papel, com um A
(absolvido) ou com um C (condenado). Entre os gregos havia o costume de
apresentar uma pedra branca ao acusado, para indicar sua inocência, ou uma
pedra negra, para indicar sua culpa.
Outros Significados. Considerar (Atos 16:15); governar (Sal.
58:11); punir, em conseqüência de julgamento condenatório (Heb. 13:4; Eze.
7:3-8; 22:2); censurar acerbamente (Mat. 7:1).
2. No Antigo Testamento
a. Yahweh é chamado, antes de todos, de Juiz dos homens. «Não
Fará justiça o Juiz de toda a terra?» (Gên. 18:25). Deus julga os indivíduos e
as nações com base em sua justiça absoluta (Gên. 3:14 ss; 6:3 ss; 11:5 ss;
15:14; 16:5; 20:3; 31:53).
b. O chefe patriarcal de uma casa, na antiguidade, era o
juiz de seus familiares e de seu clã (Gên. 21, 22 e 27).
c. Moisés era o único juiz da nação de Israel, depois que
esta saiu da servidão, no Egito; mas Jetro, seu sogro, encorajou-o a distribuir
tal responsabilidade escolhendo juízes secundários. Disso resultou a primeira
instituição dos juízes. Ver Êxo. 18:13-17; Deu. 1:9-18.
d. Na codificação que se seguiu, conforme se vê no livro de
Deuteronômio, houve a nomeação de juízes e oficiais, de tal modo que cada
cidade contasse com o seu próprio juiz (Deu. 16:18 ss). Se o caso assim o
exigisse, os sacerdotes podiam ser convocados para atuar como juízes (Deu.
17:8-13).
Êxo 22.8 Levado perante Deus. Tal como antes o sentido da
frase deve ser "levado ao santuário”. O homem deve jurar solenemente em
nome de Deus (ver v.11), declarando sua inocência. Esta espécie de decisão
judicial precisava ser aprovada pelo queixoso (como num julgamento em que o réu
tem de passar por uma prova quase impossível). Se o réu tiver jurado
falsamente, a maldição que ele invocou cairá sobre ele mesmo e assim será
suficientemente punido. Talvez nisso esteja a explicação da frase “ a quem Deus
condena” (v.9). O homem que sofre os efeitos da maldição fica exposto como
culpado pelo próprio Deus, e deve pagar em dobro ao queixoso.
II. O PROCESSO
1. RESPONDER EM JUÍZO.
O verbo "dizer" em "Não dirás falso
testemunho contra o teu próximo" (Êx 20.16; Dt 5.20) no Antigo Testamento
hebraico é ‘ãnãh, "responder, testemunhar, falar", usado também em um
processo jurídico, tanto nos tribunais humanos (Dt 19.16) como no tribunal
divino (Is 3.9; 59.12; Jr 14.7). O termo hebraico ‘êd shãqer, "falso
testemunho, falsa acusação", reaparece na literatura sapiencial (S127.12;
Pv 6.19; 14.5; 19.5,9; 25.18). A palavra ‘êd, "declaração,
testemunho", indica "alguém com conhecimento de primeira mão acerca
de um acontecimento ou que pode testemunhar com base num relato que ouviu". Tal pessoa está obrigada a
testemunhar (Lv 5.1). E sheqer, "mentira, falsidade, engano", diz
respeito a qualquer atividade falsa, tudo aquilo que não se baseia em fatos ou
realidades. Aqui é a testemunha na qual não se pode confiar.
Entretanto, no texto paralelo em Deuteronômio, sheqer é
substituído pelo substantivo hebraico shãw‘, que significa "fraude,
engano, inutilidade, inútil, imprestável, falsidade, desonestidade, futilidade,
vacuidade" (Dt 5.20). É o mesmo termo empregado no terceiro mandamento
para "vão" em "Não tomarás o nome do SENHOR, teu Deus, em vão,
porque o SENHOR não terá por inocente ao que tomar o seu nome em vão" (Êx
20.7; Dt 5.11). Na verdade, há uma relação entre estes dois mandamentos, como
exploramos no Capítulo 4. Muitos expositores do Antigo Testamento não
consideram isso uma diferença, mas uma forma de ampliar o sentido do
mandamento, podendo aplicar-se tanto no campo jurídico como nos vários aspectos
da vida diária. Sheqer é um termo específico, e shãw ‘ é genérico. As versões
antigas não apresentam também essa diferença. A LXX emprega pseudoma seitareis,
"falso testemunho", nas duas versões do Decálogo. Isso acontece ainda
em outras versões antigas como a Vulgata Latina, que traduz essas palavras por
falsum testimonium, além do Pentateuco Samaritano e o Targum de Ônquelos.
É no nono mandamento em que o termo "próximo"
aparece pela primeira vez no texto hebraico do Decálogo como berèã ‘chã,
"contra teu próximo". A palavra rêa‘, "amigo, companheiro, outra
pessoa", é usada para designar "vizinho, parceiro". O amigo pode
ser íntimo ou ocasional. O termo ocorre mais três vezes no décimo mandamento:
"... a casa do teu próximo; ... a mulher do teu próximo,... nem coisa
alguma do teu próximo" (Êx 20.17; Dt 5.21) e faz parte do vocabulário
jurídico (Êx 21.14, 35; 22.7- 10; Dt 15.2; 19.4, 5). É a mesma palavra de
"Amarás o teu próximo como a ti mesmo" (Lv 19.18) citada pelo Senhor
Jesus (Mt 19.19). A LXX traduz pela palavra grega plêsíon, "perto,
próximo" ou "perto de, próximo de", que no Novo Testamento grego
aparece como preposição na passagem da mulher samaritana, quando o texto diz
que Sicar era perto da herdade que Jacó tinha dado a José (Jo 4.5). Como
advérbio substantivado, ocorre 12 vezes em relação aos mandamentos do Decálogo
(Mt 5.43; 19.19; 22.39; Mc 12.31, 33; Lc 10.27,29,36; Rm 13.9, 10; G1 5.14; Tg
2.8).
A expressão "teu próximo" era conhecida por
qualquer judeu familiarizado com as Escrituras no período do ministério terreno
do Senhor Jesus, mas parece que havia incerteza quanto a seu exato significado:
"E quem é o meu próximo?"(Lc 10.29), perguntou um doutor da lei a
Jesus. O contexto dos evangelhos deixa claro que os judeus daquela época consideravam
como seus "próximos" apenas os amigos da mesma etnia, tribo e classe
com quem matinha uma relação mútua de afinidade e intimidade. Mas não é esse o
pensamento do Antigo Testamento, que inclui também os estrangeiros além dos
israelitas (Êx 3.22; Lv 19.34). O segundo e grande mandamento, "Amarás o
teu próximo como a ti mesmo", é a palavra final sobre o assunto. O próximo
é qualquer pessoa, independentemente de sua etnia, status, confissão religiosa
ou convicção política e filosófica.
Parece que o objetivo central deste mandamento é a proteção
ao sistema judicial. Os tribunais seriam inúteis se os homens chegassem ali
para mentir. Se tiver de ser feita uma acusação contra outra pessoa, e se 0
acusado tiver de defender-se, a verdade terá de ser dita por ambas as parles,
sob pena da justiça naufragar. Mas esse mandamento também se aplica a questões
individuais. A sociedade em geral perturba-se quando as pessoas saem a espalhar
mentiras e calúnias sobre seus semelhantes. O trecho de Êxo. 23.1 condena 0
falso testemunho em nível pessoal. Ver Deu. 19.16-20 que requeria juízo
apropriado contra falsas testemunhas que perturbavam o sistema judíciai. A
linguagem e os fatos devem concordar entre si. Ver Deu. 13.14; 17.4; 22.20;
Jer. 9,5; Sal. 9.5; 15.2; Pro. 12.19; 14.25; 22.21. A verdade precisa ser dita
como tempero do amor (Efé. 4.15). Algumas vezes, as meias verdades prejudicam
mais do que as mentiras francas. O amor, porém, guarda-nos tanto da mentira
aberta quanto das meias verdades.
A mentira artística vem sendo aprovada desde os tempos mais
antigos, conforme muitos eruditos supõem. Ver o caso de Labão (Gên. 29.21-27),
e o caso um tanto anterior de Jacó (Gên. 27.6-36). Por outro lado, a luz que
brilhou por meio de Moisés por certo condenava qualquer tipo de mentira ou
abuso de linguagem.
Êx. 20.16. Não' dirás falso testemunho. Já que numa
sociedade simples, vivendo no deserto, quase todos os crimes envolviam penas
capitais, “ falso testemunho” bem sucedido seria equivalente a assassinato.
Para evitar tal problema, a testemunha deveria ser também o executor (Dt 17:7),
de modo a incorrer na culpa do sangue se estivesse mentindo. O falso testemunho
assume grandes proporções no Velho Testamento (1 Rs 21:10, por exemplo), como
em qualquer sociedade em que a extrema pobreza exponha o homem à tentação do
suborno. Não há dúvida de que o mandamento poderia ser generalizado para
incluir a proibição de intrigas e mexericos (Lv 19:16), especialmente de
mexerico falso e maldoso que prejudicasse o próximo.
O nono mandamento diz respeito ao nosso próprio bom nome, e
ao do nosso próximo: “Não dirás falso testemunho”, v. 16. Isto proíbe: 1. Falar
falsamente sobre qualquer assunto, com mentiras, com equívocos intencionais, e
de qualquer maneira planejada para enganar o nosso próximo. 2. Falar
injustamente contra o nosso próximo, para o prejuízo da sua reputação. E (o que
envolve a culpa de ambos): 3. Dar falsos testemunhos contra ele, acusando-o de
coisas de que ele não tem conhecimento, seja judicialmente, sob juramento (com
o que são infringidos o terceiro e o sexto mandamento, além deste). Ou
extrajudicialmente, em conversação comum, caluniando, difamando, inventando
estórias, piorando o que é feito erroneamente e tornando-o pior do que já é, e
de alguma maneira empenhando-se em aumentar a sua própria reputação sobre a
ruína da do seu próximo.
2. FALSO TESTEMUNHO
O nono mandamento não se restringe apenas ao aspecto
jurídico, ao perjúrio num tribunal civil ou criminal, mas se aplica também à
vida diária, como o boato e o mexerico (Êx 23.1; Lv 19.16). Estes envolvem a
mentira e trazem implicações profundas na vida humana. Deus condena tais
práticas, e o ensino bíblico sobre o assunto começa em Moisés e se estende até
o Novo Testamento.
"Não admitirás falso rumor e não porás a tua mão com o
ímpio, para seres testemunha falsa" (Êx 23.1). A TB traz "Não levantarás
um boato falso"; a ARA e NTLH empregam "notícias falsas". A
expressão hebraica para "falso rumor" aqui é shêma ’ shãw ‘. O termo
shêma ’, "informação, notícia, fama, boato", é um substantivo
derivado do verbo Vtpüi (shãma ‘), "ouvir, escutar, prestar atenção,
obedecer". Essa informação, notícia ou fama pode ser boa ou ruim e diz
respeito ao que se ouve dizer (1 Rs 10.1), diferentemente de um conhecimento
pessoal, de uma experiência direta: "Antes eu te conhecia só por ouvir
falar, mas agora eu tevejo com os meus próprios olhos" (Jó 42.5). E o
termo shãwque significa "fraude, engano, inutilidade, inútil, imprestável,
falsidade, desonestidade, futilidade, vacuidade", aparece no terceiro
mandamento (Êx 20.7; Dt 5.11) e no nono mandamento na versão de Deuteronômio
(Dt 5.20). O falso boato é a propagação de uma notícia infundada, não oficial e
de fonte desconhecida. O contexto mostra que divulgar informação enganosa é
associação com o ímpio para se tornar falsa testemunha: "E não porás a tua
mão com o ímpio, para seres testemunha falsa" (Êx 23.1b). Mesmo as coisas
triviais do dia a dia podem terminar na justiça, pois elas destroem a reputação
de qualquer pessoa.
Como o mandamento anterior, este ressalta que as relações
humanas devem ser baseadas na honestidade e verdade. Aqui, Deus pede
honestidade com respeito à reputação de nosso próximo. o falso testemunho
(20:16) não se restringe ao contexto de um tribunal, mas ocorre sempre que
difamamos ou mentimos sobre alguém. Esse tipo de discurso é moralmente errado,
pois abala a integridade do mentiroso e a reputação do indivíduo que é alvo da
mentira. As palavras mentirosas têm conseqüências sérias; além de destruir
relacionamentos e perspectivas de carreira, podem até resultar em prisão e
suicídio. Mais adiante, Deus expande esse mandamento: “Não espalharás notícias
falsas, nem darás mão ao ímpio [...] nem deporás, numa demanda, inclinando-te para
a maioria, para torcer o direito” (23:1-2). Devemos nos lembrar de que
testemunhas falsas foram usadas até no julgamento injusto de nosso Senhor (Mt
26:59-62; Jo 19:12).
Embora negativo na forma, pode o nono mandamento apresentar
um conteúdo positivo, levando-nos a não falsear a verdade em todas as
afirmações (13.14; 17.4-6) e a sermos justos nos nossos juízos (17.8-13;
19.15-21). Cf. Mt 18.16. Na esteira do Mestre, deve todo o Cristão dar
testemunho da verdade (Jo 18.37). E como será isto possível, senão dando
testemunho daquele que é a própria Verdade?
3. O PRÓXIMO
"Não andarás como mexeriqueiro entre o teu povo; não te
porás contra o sangue do teu próximo. Eu sou o SENHOR" (Lv 19.16). A
proibição consiste em dois preceitos paralelos que expressam a mesma ideia. O
termo hebraico usado aqui como "mexeriqueiro" é rãkTl,
"caluniador, difamador", e aparece apenas seis vezes no Antigo
Testamento, indicando alguém que calunia e revela segredos (Pv 11.13; 20.19; Jr
6.28; 9.4 [3]; Ez 22.9). Com exceção de Ezequiel, em todas elas o substantivo
vem acompanhado do verbo hãlach, "andar, caminhar"; isso indica tratar-se
de uma expressão idiomática para o ato de caluniar. Os léxicos geralmente
informam que rãkil é um termo obscuro. A Septuaginta revela nele nuances que
indicam desonestidade, decepção, duplicidade e falsidade. Assim, o mexeriqueiro
aqui é muito mais que a simples fofoca ou fuxico. Isso se confirma na segunda
cláusula: "Não te porás contra o sangue do teu próximo. O
"sangue" diz respeito à vida: "Não atentarás contra a vida do
teu próximo" (ARA). A proibição nessa segunda parte significa a
responsabilidade pessoal de não colocar em perigo a vida do próximo com o falso
testemunho a fim de declarar o inocente como culpado.
O mexerico corriqueiro é também condenado pela Palavra de
Deus (2 Co 12.20). O cristão nunca deve falar mal de um irmão na igreja (Tg
4.11). o nono mandamento proíbe toda forma de mentira, tanto aquela que se diz
deliberadamente na vida diária como também sob juramento num tribunal. Tudo
aquilo que se fala com o propósito de prejudicar o bom nome de alguém é pecado
e violação desse mandamento. O Senhor Jesus Cristo citou este mandamento para o
moço rico, juntamente com outros do Decálogo (Mt 19.18; Mc 10.19; Lc 18.20). Da
mesma maneira, fez o apóstolo Paulo (Rm 13.9). Mas na graça este mandamento
aparece na esfera espiritual e não jurídica (Ef 4.25; Cl 3.9).
PRÓXIMO
1. Palavras Envolvidas
Precisamos considerar quatro palavras hebraicas e uma grega:
a. Rea, «associado», «companheiro». Mas tem uma larga
aplicação, incluindo até mesmo objetos inanimados (ver Gên. 15:10). Pode estar
em foco um amigo íntimo (Pro. 26:10), ou um amante (Can. 5:16), ou o marido de
uma mulher (Jer. 3:20). Essa palavra hebraica, pois, destaca como próximo uma
pessoa que é íntima de quem fala, em um relacionamento onde imperam laços de
amizade (ver £xo. 20:16, 17; Deu. 5:20). Essa palavra hebraica ocorre por cento
e oitenta e nove vezes.
b. Shaken, «concidadão», «vizinho». Está em foco alguém que
mora próximo, e de quem se pode pedir algo emprestado (ver Êxo. 3:22; 12:4;
Pro. 27:10). Tal vocábulo também era usado para indicar cidades próximas (ver
Jer. 49:18). O termo é utilizado por vinte vezes, como um substantivo, pois
também era um verbo, com o sentido de «residir», etc.
c. Qarob, «próximo», referindo-se a alguém ou a algum lugar;
no caso de pessoas, significava «parente». Ocorre por setenta e cinco vezes nas
páginas do Antigo Testamento. Alguns exemplos: Exo. 32:27; Jos. 9:16; Sal.
15:3; Eze. 23:5,12; Gên. 19:20; Isa. 13:13; Joel 3:14; Sof. 1:14. Essas duas
últimas referências mostram que a palavra também significava «perto»
temporalmente.
d. Amith, «colega», «igual», «próximo». Essa palavra
hebraica aparece por doze vezes no Antigo Testamento: Zac. 13:7; Lev. 6:2;
18:20; 19:11,15, 17; 25:14,15,17. Essas duas últimas referências mostram que
ela pode ser traduzida em português como «outro», embora dando a entender outro
ser humano, o próximo.
e. Plesíon, «próximo», «vizinho», «concidadão». Essa palavra
grega aparece por dezessete vezes no Novo Testamento: Mat. 5:43 (citando Lev.
19:18); 19:19; 22:39; Mar. 12:31,33; Luc. 10:27,29,36; João 4:5; Atos 7:26;
Rom. 13:9,10; 15:2; Gál. 5:14; Efé. 4:25; Tia. 2:8 e 4:12.
2. Ensinamentos Bíblicos Acerca do Próximo
Para um israelita, um outro israelita era o próximo,
porquanto era um irmão, participante, com ele, do mesmo pacto com Abraão (ver
Gen. 12:1-3). Dentro desse contexto foi dado o mandamento de amar ao próximo
como a si mesmo (ver Lev. 19:18). Esse mandamento foi universalizado no Novo
Testamento; ao passo que no Antigo Testamento era restringido aos participantes
do pacto abraâmico. Assim, a interpretação rabínica dizia que aos israelitas
foi ordenado que amassem ao próximo, e que isso subentendia que eles deveriam
odiar ao não-próximo, ou ao estrangeiro, ou ao inimigo. Jesus referiu-se a essa
interpretação equivocada em Mat. 5:43 ss. E o Senhor reverteu essa ideia
rabínica tão radicalmente que chegou a ordenar que amássemos aos nossos
próprios inimigos, determinando que orássemos em favor daqueles que nos
perseguem (ver Mat. 5:44). É desse modo que um crente chega a tornar-se um
«perfeito» filho do Pai celeste (vss. 45,46] dotado de uma elevada natureza
moral e espiritual. Diz Mat. 5:48: «Portanto, sede vós perfeitos como perfeito
é o vosso Pai celeste». Naturalmente, essa atitude para com o próximo faz parte
da manifestação geral da lei do amor. A prática da lei do amor é prova da
regeneração e da espiritualidade do indivíduo, segundo aprendemos em I João 4:7
ss.
O Antigo Testamento, de fato, emprega em sentido mais amplo
o termo «próximo», conforme se vê em Êxo. 3:22; 11:2 e Eze. 16:26. Também
poderíamos pensar no livro do profeta Jonas, que é o «João 3:16» do Antigo
Testamento. Entretanto, essa visão mais espiritual .não conseguiu capturar a
imaginação da corrente principal do judaísmo, que cada vez mais foi-se tornando
uma fé exclusivista.
A mais significativa passagem neotestamentária sobre a
definição de quem é o nosso «próximo», e o que isso deveria significar para
nós, acha-se na parábola do Bom Samaritano, em Luc. 10:29-37.
O próximo é sempre alguma pessoa em necessidade, ao qual
devemos socorrer, sem importar se essa pessoa vive perto ou longe de nós, sem
importar sua raça ou religião. Do ponto de vista da criação (posto que não do
ponto de vista da regeneração), todos os homens são filhos do mesmo Deus, e
todos eles são irmãos. Assim, um próximo, nesse amplo sentido, tem direito ao
nosso amor. Ora, esse ensino era totalmente estranho ao judaísmo exclusivista
dos dias de Jesus; mas, embora concorde com a nossa teologia cristã, raramente
é observado na nossa prática. A real lei de Deus consiste em amarmos ao próximo
como a nós mesmos (ver Tia. 2:8); mas quanto a isso temos pouca experiência,
exceto como uma proposição teológica.
Paulo também mencionou essa lei, no contexto da natureza do
amor cristão (ver Rom. 13:9,10). O amor ao próximo não o prejudica. Antes,
cumpre todos os requisitos da lei, que encoraja o bem e proíbe que se faça mal
ao próximo (ver Gál. 5:14, que reitera esse mandamento). Um amplo ensino
espiritual haverá de ser, finalmente, anunciado entre todos os homens (ver Heb.
8:11), quando então a espiritualidade do ser humano será elevada ao ponto dele
deixar de ser um guerreiro tribal, conforme hoje se vê. Ver o artigo geral
sobre o Amor, e também aquele sobre o Fruto do Espírito.
Lv 19. 18. Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Essa é a
Regra Áurea. Cada um deve amar o próximo como a si mesmo. Esse é o segundo
grande manda- mento, de acordo com a avaliação do Novo Testamento, que só perde
em importância para o amor a Deus. Jesus citou este versículo e exaltou os
princípios em que ele está alicerçado. Ver Mar. 12.31. A lei mosaica inteira
repousa sobre esses dois princípios.
A lei do amor é a primeira lei da espiritualidade, e, de
fato, a essência da espiritualidade (I Cor. 13). É fruto da regeneração (I João
4.7).
Teu próximo. De acordo com a definição rabínica, um
compatriota hebreu. Mas notemos que até este capítulo inclui o estrangeiro
(vss. 33 e 34). Jesus falou de modo que entendêssemos que próximo é qualquer
outro ser humano (Lc.10.29 ss.).
Quando de Hillel foi solicitado, por um discípulo em
potencial, que dissesse a essência da lei, estando de pé sobre somente um dos
pés (em tempo breve, portanto), ele apresentou, sob forma negativa, o conceito
à nossa frente: Ό que não quiseres que outros te façam, não faças a outros”.
Mas Jesus apresentou uma versão positiva desse mesmo princípio, em Mat. 7.12:
Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-0 vós também a
eles”. Cf. Rom. 13.8-10.
Lv 19.17-18. A responsabilidade para com o próximo envolve
uma atitude positiva de coração e mente. O ódio é ufna resposta emotiva que
somente deve ser empregada contra o mal (Am 5:15), e nunca contra alguém que
também é um membro (“irmão") da comunidade da aliança.
Quando se considera necessária a repreensão, a questão deve
ser discutida abertamente com o transgressor, e não por detrás das suas costas,
a fim de que a ira não levasse ao ressentimento e ao ódio, resultando, assim,
no pecado. Paulo encorajou Timóteo a repreender os membros da igreja que
estavam em erro, com amor e paciência (1 Tm 4:12). Tomar vingança da maneira de
uma inimizade tradicional de sangue meramente perpetua uma injustiça, e às
vezes a aumenta além de todas as proporções.
A vingança como tal pertence somente a Deus (Dt 32:35; Rm
12:19; Hb 10:30), que pagará no tempo certo. O curso para o cristão seguir em
tais casos foi exemplificado por Jesus Cristo (1 Pe 2:23). A lei do amor para
como o próximo é enunciada somente aqui e no v. 34, e, segundo parece, abrange
membros da comunidade da aliança (“os filhos do teu povo”) juntamente com os
forasteiros e estrangeiros que viviam entre eles. Na realidade, os termos
“amar” e “próximo” parecem ter sido tão compreensivos no seu escopo naquele
tempo quanto o são agora.
Esta assim-chamada “regra de ouro” foi citada por Cristo (Mt
19:19; 22:39; Mc 12:31; Lc 10:27, etc.) como ideal de comportamento altruístico
na sociedade. O sentimento que subjaz este aforismo era sem igual no mundo
antigo, e representa um dos preceitos morais mais destacados do Antigo
Testamento.
III. A VERDADE
1. ANTIGO TESTAMENTO
I. Terminologia Bíblica
No hebraico devemos considerar uma palavra e no grego,
também uma, a saber:
1. Emeth, “verdade”, “constância”. Esse vocábulo hebraico
ocorre por 92 vezes no Antigo Testamento. Há outras formas dessa palavra e
outros vocábulos que ocorrem por algumas poucas vezes, e que também podem ser
traduzidos como “verdade”.
2. Alétheia, “verdade”. Palavra grega que é usada por 110
vezes.
No Antigo Testamento, a palavra emeth e seus cognatos
indicam as idéias de firmeza, estabilidade, fidelidade, alguma base fidedigna
de apoio. É uma qualidade atribuída tanto a Deus quanto às criaturas. Também é
atribuída não somente às mais diversas afirmações (por exemplo, Rute 3:12), mas
também à conduta (ver Gên. 24:49) e às promessas (II Sam. 7:28). A verdade é
associada na Bíblia à gentileza (Gên. 47:29), à justiça (Nee. 9:13 e Isa.
59:14) e à sinceridade (Jos. 24:14). Por essas razões, a Septuaginta, com
freqüência, a traduz pelo termo grego pistis, “fé”, “fidelidade”, “convicção”,
a fim de expressar o aspecto moral, em vez de empregar alétheia, “verdade”.
Dt 32 .4 — Diferente da ineficácia dos deuses pagãos (v.
37), Deus dá a vida, a estabilidade e a felicidade ao povo (v. 15,18,30,31). A
vida abundante que Ele concede é baseada em Sua obra perfeita. Como uma Rocha
firme que permanece inabalável diante das águas furiosas de um mar revolto, o
Senhor e Sua obra continuam sólidos perante o caos produzido pelas vidas em
pecado. O Todo-poderoso é a fundação segura de toda verdade num mundo
decadente. Além disso, Ele nunca deixará as mentiras corromperem a justiça (Sf
3.5). Ao contrário, como um juiz justo e reto, protegerá os oprimidos.
Dt 32 (4) Ele é um Deus de verdade, cuja palavra podemos
aceitar, e nela podemos confiar, pois não pode mentir aquele que é fiel a todas
as suas promessas, nem suas ameaças cairão por terra.
Dt 32.1-4. Acerca do testem unho de céus e terra, cf. Is
1.2; M q 6.1,2. As palavras do cântico lembram a chuva e o orvalho porque refrescam
e renovam os ouvintes, já que aludem ao caráter de Javé. Ele é tão sólido e
confiável como uma rocha.
2. NOVO TESTAMENTO
Pelo que deixai a mentira e falai a verdade cada um com o
seu próximo; porque somos membros uns dos outros" (Ef 4.25). O apóstolo
Paulo mostra que engendrar pensamento falso, falar mentira, propalar falsos
rumores faz parte do estilo de vida do mundo pagão. Os gentios convertidos à fé
cristã tinham pela frente o desafio de mudar o seu padrão de vida; precisavam
agora viver como discípulos de Cristo. Verdade é aquilo que corresponde aos
fatos, em contraste com qualquer coisa enganosa, a mentira (Dt 13.14; 17.4; is
43.9).
A mentira é o oposto à verdade; trata-se da prática do
engano, da falsidade e da traição. No contexto bíblico, a mentira vai além da
prática intelectual da desonestidade; é uma distorção do verdadeiro eu e da
nossa relação com Deus e com o próximo (1 Jo 2.4; 4.20).
A proibição aqui é a divulgação não oficial e de fonte
desconhecida de informação ou notícia no meio do povo de Deus. A lei que manda
amar o próximo proíbe o discurso nocivo, ainda mais quando o objetivo é
destruir a vida ou a reputação do outro.
A pessoa confiável e de bem guarda segredo e não divulga o
que ouve para não prejudicar o próximo.
Nas páginas do Novo Testamento, alétheia retém a ênfase
moral e personalista que o termo paralelo hebraico tem no Antigo Testamento,
embora a noção de fidelidade, com mais freqüência, seja transmitida através da
palavra grega pistis. Etimologicamente, alétheia sugere que alguma coisa tenha
sido descoberta, revelada, segundo a sua verdadeira natureza, dando a ideia daquilo que é real e
genuíno, em contraposição com o que é imaginário ou espúrio, ou, então, daquilo
que é veraz, em contraposição com o que é falso. Assim, lemos a respeito do
“verdadeiro Deus” e da “verdadeira vinha”, tal como o Credo Niceno faia sobre
“o vero Deus do vero Deus”. O adjetivo grego, aléthinos, aparece em contextos
assim, ao passo que alethés é palavra empregada como um predicado (ver Mat.
22:16; João 3:33, etc.). A julgar pelo uso que esses dois adjetivos têm no Novo
Testamento, não se pode averiguar qualquer diferença essencial no significado
fundamental desses dois termos, Porém, as referências neotestamentárias a
declarações verazes tomam evidente que o conceito de verdade cognitiva
deriva-se das noções de franqueza ou caráter fidedigno (ver, por exemplo, Mar.
5:33; 12:32; João 8:44-46; Rom. 1:25 e Efé. 4:25).
O conceito cognitivo é mais explícito no Novo Testamento do
que no Antigo Testamento. A verdade está ligada não somente à fidelidade e à
justiça, mas também ao conhecimento e à revelação. Isso se deve, pelo menos em
parte, à intrusão da cultura grega com seus interesses mais acentuadamente
teóricos no mundo judaico; e, também, em parte, ao idioma grego, e, portanto,
seria um erro supormos que a língua grega e, portanto, o uso que o Novo
Testamento faz do vocábulo aletheia, reflita um dualismo platônico, e,
portanto, uma epistemologia platônica ou mesmo gnóstica. Pois, em primeiro
lugar, a filosofia grega é muito variada do que isso subentende: não havia
somente uma epistemologia grega. Em segundo lugar, os escritos bíblicos
moldavam os significados que queriam dar a entender, mediante o seu próprio uso
criterioso dos vocábulos. Sem dúvida alguma, ao escreverem para uma cultura já
helenizada, com suas diferentes compreensões acerca da verdade, esses
escritores conservavam em mente a ideia de verdade cognitiva. Todavia, a
maneira de pensar dos escritores sagrados era mais diretamente moldada pelos
conceitos veterotestamentários e acima de tudo, pela crença de que o verdadeiro
Deus, o Deus alethinós, não vive oculto, mas antes, age e fala com uma
franqueza totalmente digna de confiança (alethés).
II. Três Conceitos de Verdade na Bíblia
O uso que a Bíblia faz da palavra verdade, sugere três
conceitos relacionados entre si, a saber: 1. a verdade moral; 2. a verdade
ontológica; e 3. a verdade cognitiva. Naturalmente, os conceitos 2 e 3
dependem, logicamente, do conceito 1; e o conceito 3 depende, logicamente, dos
conceitos 1 e 2. Em cada um desses casos, entretanto, a base da verdade se
encontra em Deus, que é a fonte originária e o padrão de 1, a retidão; 2, o
ser; e 3, o conhecimento.
1. A Verdade Moral. A verdade é um dos atributos de Deus.
Como tal, esse vocábulo se refere à integridade, ao caráter digno de confiança
e à fidelidade de Deus. Um poeta hebreu colebra esse atributo em Salmos 89, e o
profeta Oseias o faz cm Osé. 2:19-23. Em ambos os casos, a verdade divina é
combinada com a misericórdia e o amor dc Deus. De acordo com Deuteronômio 32:4,
Salmos 100:5 e 146:6, a fidelidade de Deus é revelada por meio da criação; e,
no livro de Apocalipse, esse é o atributo de Deus sobre o qual repousa a
expectação de juízo (ver Apo. 3:7,14; 6:10; 15:3,4; 19:11 e 21:5).
Visto que o caráter divino deve ser imitado pelos homens, a
verdade também deveria ser uma qualidade, virtude ou atributo humano. Por esse
prisma, a verdade importa em honestidade (Sal. 15:2; Efé. 4:25) e justiça civil
(Isa. 59:4,14,15). Dizer a verdade, portanto, para o homem constitui uma
obrigação, de tal maneira que a veracidade (verdade cognitiva) seja uma das
características do homem em quem se pode confiar (verdade moral). Entretanto,
espera-se de cada indivíduo que se mostre íntegro diante de Deus e de seus
semelhantes (Êxo. 18:21; Jos. 24:14). Nesse sentido moral, a verdade não é
algum mero verniz superficial, pelo contrário, parte do próprio coração,
distinguindo o caráter inteiro do homem interior (I Sam. 12:24; Sal. 15:2;
51:6).
2. A Verdade Ontológica. Originando-se no conceito de que o
indivíduo que é inteiramente digno de confiança é veraz, temos aquele outro
conceito do indivíduo que efetivamente é aquilo que se propõe a scr. Isso
significa que tal indivíduo não vive uma ficção, não procura enganar ao
próximo, c nem é um homem que dê um exemplo imperfeito ou negativo. Nesse
sentido, “a verdadeira luz” (João 1:9) é a perfeição que João Batista refletia
em parte, em sua pessoa; “o verdadeiro pão” (João 6:32) faz contraste com o
imperfeito maná de Moisés; e “os verdadeiros adoradores” (João 4:23) fazem
contraste com aqueles que adoravam por mera antecipação, aguardando por quem
não conheciam o Messias. Os crentes tessalonicenses abandonaram seus ídolos a
fim de servirem ao verdadeiro Deus (I Tes. 1:9). Cristo é a verdade
personificada.
É nesse sentido que falamos sobre “um verdadeiro homem”, “um
verdadeiro erudito” ou “um verdadeiro filho”,dando a entender alguém que é fiel a algum ideal, que
representa perfeitamente algum padrão de virtude. A teoria grega dos universais
via, em todos os particulares, uma participação, em algum grau, nas formas
ideais dos universais. Pensadores cristãos como Agostinho, Anselmo e Tomás de
Aquino equipararam essas formas com as idéias e os decretos divinos (verdades
eternas), tendo atribuído uma “verdade ontológica” aos objetos naturais que dão
corpo a essas idéias e decretos. Entretanto, essa noção não se originou dos
ensinamentos bíblicos, mas pela combinação das teorias gregas sobre a forma com
o conceito bíblico de um Criador que faz todas as coisas em consonância com a
sua perfeita vontade.
3. A Verdade Cognitiva. Um outro fator resultante da verdade
moral é que o indivíduo veraz diz a verdade e não a mentira ou falsidade. Em
Deus, a verdade origina-se na sua onisciência, de tal modo que o atributo da
verdade se refere, pelo menos em parte, ao seu perfeito conhecimento de todas
as coisas (Jó 28:20-26; 38:39). Visto que Deus é o Criador, tudo quanto sabemos
depende, em última análise, do Senhor. Toda verdade é uma verdade divina.
Nossas habilidades cognitivas são uma criação de Deus, e o caráter inteligível
da natureza confirma a sabedoria de Deus. Por conseguinte, o conhecimento de
Deus é um conhecimento arquétipo, do qual o nosso conhecimento é parcial, uma
imitação. Aquilo que declaramos verdadeiro, só o é à proporção que concorda com
a verdade, que só se manifesta perfeitamente na pessoa de Deus. Isso posto, a
verdade terrestre é contingente, dependente, limitada, provisória. É por um
motivo assim que o apóstolo dos gentios explicou que “... agora vemos como em
espelho, obscuramente...”, e que somente na presença imediata de Deus, quando
estivermos na glória, é que “...veremos face a face ...”. Sim, ainda no dizer
do apóstolo, agora conhecemos apenas parcialmente; no céu conheceremos tal e
qual somos conhecidos. Em contraste com o nosso conhecimento refletido, a
verdade arquétipa é ilimitada, imutável e absoluta. No caso do homem, a verdade
permanece em formação constante; mas, no caso de Deus, a verdade já é perfeita,
completa.
Isso é expresso através do conceito do Logos, nos escritos
de João, bem como na discussão, na epístola aos Colossenses, sobre o fato de
estarem ocultos, em Cristo, “...todos os tesouros da sabedoria e do
conhecimento...” (Col. 2:3). O Cristo, por intermédio de Quem todas as coisas
foram criadas, e que agora sustenta a tudo em existência, é aquele que
empresta, à natureza e à história, inteligibilidade, boa ordem e propósito.
Conhecer a Cristo é conhecer a fonte onisciente de toda a verdade, de todo o
conhecimento, não a fim de que possamos saber de tudo quanto ele sabe, mas a
fim de podermos compreender como são possíveis todo o conhecimento e toda a
sabedoria. Cristo é aquele que garante o caráter fidedigno de qualquer verdade
que podemos obter.
Apesar dc ser evidente, no Novo Testamento, o conceito
cognitivo da verdade (ver, por exemplo, Mar. 5:33; 12:32; Rom. 1:25), é
particularmente aplicado ali à mensagem anunciada por Cristo e seus apóstolos
(João 5:33; 8:31-47; Rom. 2:8; Gál, 2:5; 5:7; Efé. 1:13; I Tim. 3:15; I João
2:21-27). Um mensageiro cristão fiel fala a verdade que procede de Deus; e,
correspondendo a essa verdade de Deus, o crente confia em Deus, de quem procede
essa verdade. A fé, pois, consiste tanto no assentimento da verdade como na
dependência ao que Deus declara. Por isso é que se lê que uma pessoa “pratica a
verdade”, quando dá o seu assentimento à mensagem do evangelho e confia em Cristo, em vista de sua “verdade moral” ou
fidelidade (ver I João 1:6-8; 2:4; 3:18,19).
« ...e a verdade...» Quanto a este particular, poderíamos
destacar os pontos seguintes:
1. Jesus é a verdade de Deus porque, na qualidade de «Logos»
eterno (ver João 1:1), ele é a perfeita revelação de Deus e de sua verdade, e
isso não meramente para os homens, mas também para todos os seres criados.
2. Jesus é, especialmente, a revelação de Deus aos homens,
no que concerne à salvação deles. Sua própria pessoa representa realmente essa
verdade, porque nele, segundo os eternos conselhos divinos (ver Efé. 1:3-5),
ele sempre esteve unido a Deus Pai, e o plano da redenção dessa maneira se
originou dele. Assim sendo, em sua encarnação, ele trouxe essa verdade da
redenção aos homens. Em sua ascensão, ressurreição e glorificação, ele assegura
aos remidos a mais plena participação em toda a sua glória e em sua natureza
divina. Portanto, por esses motivos ele é a verdade metafísica do homem.
3. Jesus é a verdade do caminho pelo qual os homens devem
retornar a Deus, porquanto ele é o exemplo supremo e o ilustrador desse
caminho. Essa é a verdade envolvida em sua encarnação. Tudo quanto o homem
precisa saber está contido em sua pessoa. Jesus é a verdade ética do homem.
4. Dessa maneira, em sua própria pessoa, Cristo Jesus
combina tudo quanto os homens precisam saber, crer e ser, tanto no que diz
respeito à natureza de Deus como no que tange à natureza e à posse da redenção
e da glória eterna.
5. Jesus é a Verdade, em o posição à religião falsa, como o
judaísmo desviado e obstinado. Ele é aquela verdade para a qual apontava a lei
mosaica, e da qual o pacto do A.T. era apenas uma sombra pálida. Ele é a
materialização dá verdade espiritual, e não meramente um profeta de Deus ou uma
representação parcial polêmica cristã contra os judeus incrédulos, que
rejeitaram ao seu próprio Messias. O autor sagrado queria que tais pessoas
soubessem que tudo aquilo em que confiavam, como uma revelação da parte de
Deus, nada significava à parte da pessoa de Jesus Cristo, posto ser ele a
concretização de toda a verdade de Deus, ao passo que Moisés, a lei e os
profetas meramente apontavam para Cristo.
6. Em sua própria essência. Cristo também é a verdade de
Deus, porquanto ele mesmo é divino, e assim nos tem mostrado qual é a natureza
de Deus ou a verdadeira forma de vida que ele possui, a qual ele está
transmitindo aos homens através de Cristo. Essa é justamente a mensagem de um
trecho como Col. 2:9, onde se lê: «...porquanto nele habita corporalmente toda
a plenitude da divindade...» Ou então do trecho de Col. 1:15: «Ele é a imagem
do Deus invisível...».
Ele os traz em segurança ao lar situado lá em cima. Cristo é
a verdade: Cada palavra sua pode ser confiada implicitamente, pois ela ensina o
conhecimento de Deus, de aponta o caminho. O caminho que ele ensina é o único
caminho certo, pois ele é a verdade absoluta. Cristo é a vida: Ele é o
manancial e o doador de toda verdadeira vida, a vida que vivifica a todos
aqueles que creem nele, e que é para ser gozada eternamente no fim do caminho.
Aquele que nele crê tem a vida eterna, no que está na vontade e intenção de
Deus, está completamente unido a Deus. Sendo estas coisas verdadeiras, a
conseqüência é que ninguém pode vir ao Pai, ou alcançar o gozo da bendição
eterna, a não ser só por Jesus. Não há outro caminho, sendo que todos os
caminhos que são imaginados pelas pessoas, os caminhos das boas obras e da
justiça própria, são trilhos falsos os quais levam à destruição eterna. Jesus é
o único caminho ao céu. “Creio que é isto o que ‘verdade’, que é a segunda
palavra, significa em toda sua simplicidade, a saber, que Cristo não é somente
o começo do caminho, mas que é o caminho verdadeiro e seguro, que finalmente
permanecerá o caminho ao qual a gente sempre se precisa ater, e não permitir
que o trilho errado nos seduza a buscar algo ao lado de Jesus que nos possa ajudar
na salvação.
3. O QUE É A VERDADE
« ...Perguntou-lhe P ilatos: Que ê a verdade?...» A
pergunta, feita ao Senhor Jesus por Pilatos, e que este último não esperou ser
respondida, tem sido encarada de diversas maneiras pelos intérpretes, como
segue: 1. «‘Q ue é a verdade?’ disse Pilatos a zombar, sem querer esperar pela
réplica». (Lord Bacon).
2. Outros estudiosos vêem uma forma de amargura mental
expressa neste ponto, por alguém que já fora empurrado para lá e para cá, »no
mundo político altamente competitivo e ilusório, onde a verdade real sempre
aparece como a última consideração.
3. Alguns percebem nessa pergunta de Pilatos um tom de
sarcasmo. Sucederia, por acaso, que aquilo que os grandes filósofos gregos,
seguidos por não insignificantes pensadores romanos, não conseguiram definir e
provar, havia encontrado definição por aquele entusiasta judeu? E poderia a
verdade derivar-se de uma sociedade como a dos judeus, inimigos do gênero
humano, que naquele exato momento exigiam a morte de um homem inocente? «Esse
famoso escárnio de Pilatos revela a sua própria ignorância sobre a verdade,
estando ele defronte da verdade encarnada».
4. Certos estudiosos têm pensado que a indagação de Pilatos
expressou uma inquirição autêntica e sincera pela verdade. (Assim pensavam
Crisóstomo, Teodoreto, Arécio e outros). Porém, essa opinião não parece
coincidir com a realidade dos fatos.
5. Lange (in loc.) opinou como segue: «Evidentemente ele
‘Pilatos’ não tinha qualquer idéia de verdade subjetiva e vital, e por verdade
entendia meramente um problema objetivo escolástico sobre o que um homem
prático e de negócios não precisava perder tempo em meditações». Essa
interpretação é apoiada pelo fato de que os romanos, em sua maior parte, não se
envolviam em especulações metafísicas acerca da verdade e sua natureza, a
exemplo dos gregos; e, por igual modo, na filosofia romana, o ceticismo se
torriara muito forte. Por definição filosófica, o ceticismo afirma que não
existe qualquer coisa como uma verdade certa, imutável e eterna, e que, mesmo
que tal coisa exista, os homens ainda não encontraram meios para descobri-la,
não sendo mesmo provável que se possa encontrar esses meios de descoberta ou
descrição. Naturalmente esse parecer dos antigos romanos é o arauto do moderno
ceticismo científico, conforme pode ser visto no positivismo lógico, que
decreta que a descoberta da verdade é impossível para os homens, reduzindo a
filosofia a uma mera tentativa de fornecer algum método científico ao processo
do raciocínio. Para essa escola, a verdade é o que funciona em qualquer dada
situação, mas, em face da alteração das circunstâncias ou situações, a verdade
passa a ser outra.
Pilatos, quer inclinado quer não às especulações
filosóficas, sem dúvida compartilhava de algo dessa atitude tipicamente romana,
por ser parte de uma sociedade que encarava as coisas dessa maneira.
Portanto, a sua pergunta a Cristo, para a qual não esperou
resposta, equivale a uma declaração sua, como, por exemplo: «Quem se importa
com a verdade? Esse reino de que falas, ó Jesus, é um reino que não pode ferir
nossos interesses ‘romanos’ aqui em Jerusalém. Que tenho eu a ver com
províncias e reinos que não podem render tributo, que não podem produzir
qualquer exército que se revolte contra nós? Não passas de um fanático, e não
representas qualquer ameaça política real».
E assim, com um gesto que deixava ver a sua impaciência
-pois não tinha interesse algum em ouvir mais qualquer coisa sobre o que lhe
parecia especulações teológicas loucas—voltou Pilatos as costas a Jesus, não
querendo mais ouvi-lo. Não obstante, estava convicto de sua inocência e
proclamou essa opinião francamente à multidão que o esperava ululante lá fora.
Declarou que Jesus não era culpado de crime algum e que suas aspirações à
realeza eram inteiramente diversas daquilo de que vinha sendo acusado.
O vocábulo «...eu...» é enfático dentro da frase: «Eu não
acho nele crime algum». É como se Pilatos houvesse dito à multidão: «Quanto a
vós, tendes encontrado falta nele, mas injustamente, por motivo de ódio e
preconceitos religiosos e por causa dê vossa inveja; mas, quanto a mim, não
encontro crime algum neste homem».
«Pilatos escarneceu tanto da grande Testemunha da Verdade
como dos que aborreciam a verdade. Sua conduta apresenta um lamentável exemplo
da fraqueza moral daquele espírito de poder mundano, que atingiu o seu ponto
culminante no império romano».
A declaração que Pilatos fez nessa oportunidade, e que
coincidia com a verdade e com a justiça mais pura, não demorou a ser obliterada
pelas maquinações da política, onde parece mais importante preservar a paz do
que salvar a vida de um inocente.
«Não encontro motivo algum para a acusação legal (ver o vs.
33). Sem importar o que ele ‘Jesus’ seja, não há qualquer prova de traição
contra a majestade de César».
«A única certeza que há é que nada é certo, nem mais
miserável do que o homem, e nem mais orgulhoso». (P lín io , o Velho, que assim
deixava transparecer sua atitude, própria da sua época).
«A finalidade de Pilatos corresponde a uma vida vazia de
toda base de verdade objetiva; de'conformidade com as autoridades clássicas,
ele terminou por suicidar-se, em conseqüência de graves infortúnios». (Eusébio,
História Eclesiástica, II.7).
No tocante à verdade do cristianismo, Arthur John Gossip (in
loc.)declara: «Caso Pilatos se tivesse demorado um pouco mais,
Cristo poderia ter-lhe respondido: ‘Eu sou a verdade...’ Mas até isso, com toda
a probabilidade, pouco ou nada teria significado para aquele altivo romano. No
entanto, isso seria estritamente verdadeiro».
Não faz muito tempo em que certo professor, de nome Charles
Kingsley, resignou sua cadeira de professor de história, sob a alegação de que
não existe aquilo que convencionamos chamar de história, pois não haveria
conhecimento fidedigno sobre os acontecimentos passados, conforme eles
realmente sucederam, mas tão-somente narrativas inexatas, coloridas pelos preconceitos
deste ou daquele. E muitos, por semelhante modo, têm desistido da busca pela
verdade.
A verdade que conhecemos
1. Sabemos de bem pouco, mas aquilo que sabemos é
imensamente importante.
2. Em contraste com o conhecimento de um historiador, que depende
de pesquisas do passado distante, e isso contando com meios inadequados, a
busca pela verdade religiosa depende da revelação. A revelação depende do
interesse de Deus pelo mundo, e é evidência do mesmo.
3. A verdade é comprovada nas vidas daqueles que são
transformados segundo a imagem de Cristo. Ê necessário poder para que isso se
concretize, e o que é bom traz consigo suas próprias evidências.
A sabedoria não é finalmente testada nas escolas,
A sabedoria não pode passar de quem a tem para quem não a
tem,
A sabedoria é da alma, não é susceptível de prova, é sua
própria prova.
(Walt Whitman, Canção da Estrada Aberta).
Conforme disse Aristóteles (Retórica 11.13), a verdade é que
os homens se vão tornando menos e menos dogmáticos, à proporção em que
envelhecem, reconhecendo cada vez mais a vastidão da verdade; e isso certamente
é o caso da verdade de Cristo, pois essa é infinitamente ampla e não pode ser
contida por qualquer credo ou denominação religiosa, porquanto é impossível
alguém cercar Deus com uma sebe.
Contra a arrogância
1. A fé não consiste de não crer em algo que não é a
verdade. Urr dogma pode servir de obstáculo para a verdade que conhece as
coisas. 2. Nenhuma denominação ou fé isolada pode ser guardiã da verdade divina. Podemos aprender coisas de outros, e as janelas
deveriam ser mantidas abertas, para permitir que a luz entre, para que
possa haver crescimento.
Da preguiça que aceita meias-verdades,
Da arrogância que pensa conhecer toda a verdade,O Senhor, livra-nos.
O próprio Paulo exibiu grande confiança: «Sei em quem tenho
crido», e, no entanto, aludiu a si mesmo como mero principiante na inquirição
pela verdade espiritual. (Ver II Tim. 1:12, em comparação com Fil. 3:10-14.
Quanto a Jesus como «a personificação da verdade», ver João
14:6).
Quando Pilatos ouve essa observação a respeito da verdade,
ele dá de ombro. Cético como era, esse assunto não lhe desperta nenhum
interesse. É bom ter em mente, neste contexto, que muitos líderes romanos
tinham desistido de todas as crenças pagãs com respeito aos deuses. Ah, bom, no
final de contas os deuses podem existir e se vingarem de quem os ofende. Por
essa razão, muitas dessas pessoas, inclusive aquelas da fam ília de Pilatos
(ver M t 19.7-9; M t 27.9), eram dom inadas por medo supersticioso; mas quanto
a convicções arraigadas ou fé profundam ente radicada com respeito a Deus ou
realidades básicas, isso sim plesmente não existia para eles.
É nesse espírito de ceticismo e cinismo extremos que Pilatos
deixa escapar: “O que é a verdade?” , não se dando conta de que a resposta
estava em pé à sua frente (ver sobre 14.6).
Tendo dito isso, Pilatos retoma ao pórtico e definitivamente
diz aos judeus - a multidão está crescendo sem parar em frente ao pretório - ,
“Eu não acho nele crim e algum ”. Nenhum crime, nenhum a causa para acusação!
Este homem, Jesus, tal como Pilatos o via, especulava em fantasias espirituais,
não era um indivíduo perigoso. Da parte dele, não havia perigo para o estado.
Se o governador fosse um homem honesto, se estivesse disposto a servir à causa
da justiça, ele teria, neste ponto, liberado o prisioneiro. Mas Pilatos não era
esse tipo de homem. Para o caráter de Pilatos, ver sobre 18.29, 30.
Quando os judeus - pensamos que especialmente nos líderes,
os membros do Sinédrio - , ouviram o veredicto de Pilatos (“Não há motivo para
acusação”), imediatam ente acusaram Jesus de sedição, que segundo eles tivera
seu começo na Galiléia e continuado até Jerusalém. O resultado foi que Pilatos
- que, naturalmente, sabia muito bem que tinha total jurisdição nesse caso,
pois, segundo a acusação, a tentativa de insurreição teria ocorrido dentro dos
portões de Jerusalém! - o enviou a Herodes. Foi um gesto de cortesia. E, ao mesmo tempo (e isso estava no âmago da mente de Pilatos), se porventura Herodes
estivesse disposto a julgar esse caso, ele (Pilatos) ficaria livre dele. E
ficar livre dele era o que Pilatos mais queria! A história do aparecimento de
Jesus perante Herodes é contada em Lucas 23.5-12. O estratagema falhou. Herodes
devolveu o prisioneiro, paramentado num a vestimenta de chacota. Então, Pilatos
outra vez se dirige aos membros do Sinédrio, dizendo-lhes que nem ele nem
Herodes acharam motivo para acusação. Mas, novam ente ele transige. Temor
supersticioso e, quem sabe, um resquício de senso de justiça impedem Pilatos de
sentenciar Jesus a ser crucificado. Ele não está pronto para isso ... pelo
menos não ainda! Por outro lado, o medo do que judeus pudessem fazer-lhe caso
acrescentasse m ais um a ofensa às anteriores, o impede de soltar Jesus. Desse
modo, seu perverso coração está dividido entre os dois temores. Então, ele se
propõe agradar aos judeus sugerindo chicotear Jesus; e aplacar a voz de sua
própria consciência e os deuses {caso eles existissem !) não emitindo a ordem
de crucificar o prisioneiro. Ver Lucas 23.13-16.
Os judeus, entretanto, têm outros planos. Nesse momento, a
multidão - a essa altura um a multidão se juntara! - exige de Pilatos que ele
faça o que tem costume de fazer por ocasião da Páscoa, isto é, soltar um
prisioneiro, que eles indicariam (talvez como símbolo e recordação da
libertação de seus ancestrais da casa da servidão no Egito).
Jo 18.37. Pilatos entendeu pouco. Ele sabe que Jesus falou
de seu ‘reino’ e, portanto, que as pretensões de Jesus como um rei devem ser
investigadas mais profundamente:
Então, você é rei! A resposta de Jesus, traduzida
literalmente, diz: “Tu dizes que sou rei”, perifrasticamente traduzida por Dodd
como “‘Rei’ é uma palavra tua, não minha” (H TFG, p. 99; de forma similar,
Bruce, pp. 353-354). Mas, na realidade, a evidência é muito forte de que a
expressão é certamente afirmativa (assim, a tradução da BLH “É o senhor que
está dizendo que eu sou rei!”), mesmo se, como na expressão mais simples, ela é
hesitante ou leva a uma circunlocução. Em outras palavras, Jesus foi tão longe
na auto-revelação que ele deve confirmar abertamente seu próprio status real,
mas ele estaria iludindo muito se não continuasse a explicar a natureza
peculiar de seu reino. Depois de descrever seu reino com uma forma negativa (v.
36), ele agora define sua missão real positivamente.
Ele nasceu para ser um rei, para isso ele veio ao mundo: no
contexto do quarto evangelho, esse par de expressões refere-se à encarnação,
sua mudança da glória que compartilhava com o Pai em sua presença (17.5) para a
sua manifestação nesse mundo arruinado para manifestar algo daquela glória
(1.14). Somente nesse momento desse evangelho, o nascimento de Jesus é
mencionado sem nenhuma ambiguidade. Ele veio, em suma, para ser um rei - ou, de
outra forma, para testemunhar da verdade (alêtheia-, cf. notas sobre 1.14;
4.24; 14.6). O paralelismo sugere que seu reino é o reino da verdade; ou, de forma
mais precisa, o exercício de seu reinado de salvação é praticamente
indistinguível de seu testemunho da verdade.
Nesse contexto, a verdade é interpretada em um sentido mais
que intelectual (cf dela Potterie, 2. 624ss.); ela é apenas a auto-revelação de
Deus em seu Filho, que é a verdade (14.6). Revelar a verdade de Deus, da
salvação e do juízo, era o principal meio de fazer súditos, de exercer seu
reinado salvífico.
De forma similar, somente aqueles que são corretamente
relacionados com Deus, com a própria verdade, podem compreender o testemunho
que Jesus fornece da verdade (cf. 3.16-21). Todos os que são da verdade ouvem a
Jesus (cf. 10.3,16,27).
38a. Se o reinado de Jesus é indistinguível de seu
testemunho da verdade, e se seus seguidores são caracterizados por fidelidade a
seu testemunho, e não pela revolução violenta, Pilatos é forçado a reconhecer
que Jesus está sendo vítima de uma conspiração do Sinédrio. Além disso, há um
convite implícito nas palavras de Jesus. O homem no banco dos réus convida o
juiz para ser seu seguidor, para juntar-se àqueles que são “da verdade”. Jesus
não é perigoso; mas ele também pode estar irritando Pilatos. De qualquer forma,
Pilatos abruptamente termina o interrogatório com uma curta e cínica pergunta:
Que é a verdade? - e com a mesma rispidez dá as costas, seja porque ele está
convencido de que não existe uma resposta, seja porque ele não quer ouvi-la, o
que é mais provável. Ele prova, assim, que não está entre aqueles a qúem o Pai
deu a seu Filho.
IV. O CUIDADO COM A MENTIRA
1. AS TESTEMUNHAS.
Sobre o Falso Testemunho (19.15-21),Dt 19.15 Pelo depoimento de duas ou três testemunhas. Esse
múltiplo testemunho concorria para a preservação da justiça. A lei mosaica era
severa, e por muitas vezes requeria a punição capital, devido a crimes que na
cultura moderna não seriam castigados tão severamente. Uma testemunha falsa
poderia tentar eliminar um adversário prestando um testemunho falso: “Meu
vizinho estava adorando um ídolo!”. A fim de impedir tão ultrajante conduta,
pois, foi estabelecida a lei das “duas ou mais testemunhas”. Desse modo o
perjúrio, embora não fosse eliminado de todo, pelo menos era grandemente
reduzido. Já vimos essa lei em Deu. 17.6. As notas oferecidas ali aplicam-se
também aqui. O depoimento de testemunhas precisava ser investigado. Os juízes e
os tribunais locais não deveriam aceitar passivamente os caprichos desonestos
dos homens. Juízes inquiririam as teste- munhas. E as testemunhas falsas
deveriam ser executadas (Deu. 19.19). Isso lançaria o temor no coração de
todos, dificultando o pecado de perjúrio.
Ό uso veraz da língua, ao evitar a todo o transe a calúnia e
a acusação falsa, é um dos princípios centrais da ética bíblica, sendo esse
pecado condenado no nono mandamento da lei. Aqui esse principio foi expresso em
linguagem leal, para uso nos tribunais (cf. Êxo. 23.1; Lev. 19.11-18)".
As testemunhas não podiam prestar seu testemunho por meio de
cartas, nem podiam enviar representantes. Era mister que comparecessem
pessoalmente, a fim de serem inquiridas pelos juízes. E se houvesse 0
envolvimento de algum idioma estrangeiro, não podia haver um intérprete entre
as testemunhas e os juizes. As testemunhas tinham de encarar os juízes. Cf.
Núm. 35.30.
Dt 19.16 Quando se levantar testemunha falsa. É de
presumir-se que os casos complicados fossem submetidos à apreciação da Corte
Suprema, que funciona- va no santuário central, em Jerusalém. Ver Deu. 17.18
ss.. O lugar determinado por Yahweh como o santuário central também abrigaria o
Tribunal Superior, que julgaria os casos mais difíceis. Israel dispunha de
severas leis de retaliação, como olho por olho e dente por dente (vs. 21), e
isso precisava ser regulamentado com medidas extremas, mediante investigação e
depoimento de testemunhas oculares, para que houvesse sempre julgamentos justos.
Leis severas exigiam uma justiça estrita.
Dt 19.17 Então os dois homens. É provável que tenhamos aqui
a descrição daqueles entre os quais tivesse surgido alguma pendência, no
santuário central; mas, se um concilio local estivesse envolvido, então deveriam
prevalecer as mesmas regras de justiça. O vocábulo no singular, “juiz”, que ali
aparece (vs. 9), talvez seja uma referência ao sumo sacerdote, que era o juiz
supremo em Israel. A passagem de Deuteronômio 17.8-13 aborda a Corte Suprema, e
nas notas expositivas a respeito, dou informações acerca dos oficiais que
operavam ali, bem como dos tribunais secundários. Ver também Deu. 16.18 ss..
Nesse versículo 18 dou informações específicas sobre a estrutura dos antigos
tribunais de Israel.
Homens. Mulheres não podiam servir de testemunhas. Esse mesmo documento antigo assevera que tanto as
testemunhas quanto os acusados tinham de dar e ouvir o testemunho estando de
pé.
Perante o Senhor. Assim foi dito porque o tribunal e suas
regras de ação tinham sido estabelecidos por ordem divina. Deus era o
observador silente que acompanhava 0 processo inteiro de justiça, e a Sua
presença inspiraria os juízes a impor uma justiça estrita.
O comparecimento pessoal era uma necessidade. Ninguém podia
escrever uma carta ou enviar um seu representante.
Diante dos sacerdotes e dos juízes.
Dt 19.18 Os juízes indagarão bem. Investigações criteriosas
faziam parte do dever dos tribunais, em Israel. Ninguém podia mostrar-se
frívolo, nessas ocasiões. Com freqüência, a punição capital era o fim do
julgamento. O Targum de Jonathan refere a um exame e interrogatório completo
das testemunhas. Ver Deu. 17.4, quanto à expressão “indagarás bem”. Ver também
Deu. 13.12-14 e 17.9. O trecho enfatiza a questão. Não se permitia testemunho
por “ouvir dizer”, em Israel.
Dt 19.19 Assim exterminarás o mal do meio de ti. O próprio
Yahweh cuidaria para que os tribunais de justiça de Seu povo não falhassem. Se
alguma testemunha falsa fosse descoberta pelas investigações, então tal
indivíduo sofreria exatamente 0 castigo que tinha esperado infligir sobre seu
vizinho ou conhecido inocente.
A questão era levada “perante o Senhor” (vs. 17), porquanto
era 0 tribunal do Senhor e os juízes do Senhor estavam julgando o caso. Sua
presença, invisível mas real, seria garantia absoluta da justiça.
O castigo poderia tomar a forma de uma multa, de açoites, da
perda de um dos membros do corpo, ou então de execução por apedrejamento,
estrangula- mento, execução na fogueira ou morte à espada. As testemunhas falsas
seriam sujeitadas a uma dessas punições, sem importar qual delas tivesse sido
planejada para o homem falsamente acusado.
Dt 19.20 ... o ouçam e temam. Aqueles que sobrevivessem ao
incidente (como a familia do homem que tinha cometido perjúrio), bem como a
população em geral, que ouvisse falar sobre o caso, temeriam, desencorajando o
crime de perjúrio. E embora isso não eliminasse 0 mal das testemunhas falsas,
essa prática odiosa ficaria grandemente reduzida.
III. Falsas testemunhas (19: 15-21). A prática do perjúrio é
proibida no decálogo (5 : 20). Para desestimular o perjúrio, contudo, certas
medidas judiciais foram estabelecidas. Esta breve seção trata de todo o assunto
das testemunhas e, em especial, da falsa testemunha, que tem sido uma ameaça à
sociedade em todas as épocas e entre todos os povos.
Dt 20.15. É perfeitamente provável que Moisés formulasse uma
única lei apodítica com referência ao falso testemunho. Podemos postular tal
lei nos seguintes termos: Uma única testemunha não terá ganho de causa (lit.
“ficará de pé”) contra outrem com respeito a um crime qualquer.
Na explanação subseqüente a tal lei aparece a cláusula de
que duas ou três testemunhas são necessárias antes que uma acusação possa ser
sustentada.
Dt 20.16-20. O caso da testemunha maliciosa (lit.
“testemunha de violência”, i.e. seu testemunho levaria a um ato de violência) é
agora discutido.
Quando tal testemunha declarava que o acusado era culpado de
um ato errado (lit. “desvio”, i.e. deserção, apostasia ou má conduta moral ou
religiosa), as duas partes em litígio tinham que comparecer perante Javé para
responder aos sacerdotes e juízes que estivessem oficiando na ocasioes. O
tribunal localizado no santuário central parece ser o que se tem em vista nesta
passagem (cf. 17: 8-13). Depois de cuidadoso exame os juízes (provavelmente
todo o grupo de sacerdotes e juízes) dariam o veredito.
Se a testemunha fosse falsa receberia o castigo que se
tencionava dar ao acusado. Desta maneira o mal seria “queimado” (exterminado)
de Israel e o perjúrio desestimulado.
Dt 20.21. A penalidade para o falso testemunho estava de
acordo com a lex talionis, ou lei da retaliação (cf Êx 21: 23ss.; Lv 24:17ss.),
i.e. olho por olho, dente por dente, etc.I39 Este princípio é freqüentemente
mal entendido. Longe de estimular a vingança, ele limita a vingança e serve
como guia para um juiz ao fixar este a penalidade compatível com a seriedade do
crime. O princípio não era, assim, o de dar margem à vingança, mas o de
garantir a justiça, Lei semelhante era conhecida em outras partes do mundo
semítico. Algumas sociedades faziam uso de compensações monetárias em alguns
casos.141 Basicamente, a lex talionis expressa a opinião de que a vida do
indivíduo é algo sagrado, sem equivalente material (cf. 12:23, 24; 15:9; 21:8;
22:6; 7; 25:11,12). A crítica feita por Jesus a esta lei (Mt 5: 38ss.) surgiu
de seu emprego para regular a conduta entre dois indivíduos. Cristo não a
rejeitou como princípio de justiça que deveria ser empregado nos tribunais
terrenos. Com respeito a relacionamentos interpessoais Ele propôs o ideal da
fraternidade, princípio marcadamente forte em todo o livro de Deuteronômio.
Estender a lex talionis ao domínio interpessoal equivalia a destruir a lei de
Deus.
Os Falsos Testemunhos vv. 14-21
Aqui está um estatuto para impedir fraudes e perjúrios. Pois
a lei divina protege os direitos e as propriedades dos homens. Ela é uma mui
grande amiga da sociedade humana e do interesse civil dos homens.
Uma lei contra fraudes, v. 14. 1. Aqui está uma instrução
implícita, dada aos primeiros colonizadores de Canaã, para que fixassem marcos,
segundo a distribuição da terra às diversas tribos e famílias. Observe que a
vontade de Deus é que cada um tenha o que for seu, que todos os bons meios
sejam usados para evitar invasões e conflitos, e que ninguém faça ou receba o
mal. Quando o direito é estipulado, deve-se tomar cuidado para que não seja,
posteriormente, removido. E, se possível, que não haja oportunidades para
disputas. 2. Uma lei expressa à posteridade, para que não removesse estes
marcos que assim tinham sido fixados a princípio, para que um homem,
secretamente, não obtivesse para si aquilo que era de seu vizinho. Este é, sem
dúvida, um preceito moral, e ainda em vigor, e a nós ele proíbe: (1) Invadir o
direito de qualquer pessoa, e tomar para nós aquilo que não nos pertence, por
qualquer artifício ou procedimento fraudulento, como falsificar, ocultar,
destruir ou alterar certificados e escritos (que são os nossos marcos, em
função dos quais são feitas as apelações), ou modificar cercas, marcos e
limites. Embora os marcos fossem colocados pelas mãos do homem, ainda assim,
segundo a lei de Deus, aquele que os removesse seria um ladrão e um saqueador.
Que cada homem fique satisfeito com a sua própria sorte, e seja justo com seus
vizinhos, e então não teremos nenhum marco removido. (2) Este preceito nos
proíbe de semear a discórdia entre vizinhos, e fazer qualquer coisa que
ocasione disputa e processos judiciais, o que é feito (e muito mal feito)
confundindo aquelas coisas que deveriam determinar as disputas e decidir as
controvérsias. E: (3) Também nos proíbe de romper a ordem e a constituição
estabelecidas do governo civil, e alterar costumes antigos sem justa causa.
Esta lei sustenta a honra das prescrições. Consuetudo facit jus - O que é
costume deve ser considerado como lei.
Uma lei contra perjúrios, que estabelece duas coisas:
1. Que
uma única testemunha jamais deveria ser aceita para dar evidência em uma causa
criminal, de modo que a sentença fosse proferida com base no seu testemunho, v.
15. Esta lei já foi vista antes, Números 35.30, e neste livro, cap. 17.6. Isto
foi decretado a favor do prisioneiro, cuja vida e honra não deveriam estar à
mercê de uma pessoa particular que tivesse algum ressentimento contra ele, e
por precaução, para que o acusado não dissesse aquilo que não pudesse confirmar
através do testemunho de outra pessoa. Esta lei coloca a humanidade, com
justiça, em uma posição vergonhosa, considerando-a como falsa e indigna de
confiança. Segundo ela, deve-se suspeitar de todos os homens. Porém é uma honra
para a graça de Deus que o relato que Ele deu, a respeito do seu Filho, seja
confirmado tanto no céu quanto na terra, por três testemunhas, 1 João 5.7.
“Sempre seja Deus verdadeiro, e todo homem mentiroso”, Romanos 3.4.
2. Que uma
falsa testemunha deveria receber a mesma punição que fosse infligida à pessoa
que ela acusasse, vv. 16-21. (1) O criminoso aqui é uma falsa testemunha, de
quem se diz que “se levanta” contra um homem, não somente porque toda
testemunha se levantava quando apresentava sua evidência, mas porque uma falsa
testemunha, na verdade, se levanta como um inimigo e um assaltante contra
aquele que ela acusou. Se duas, ou três, ou muitas testemunhas, estivessem de
acordo em um falso testemunho, todas estariam sujeitas à acusação, por esta
lei. (2) A pessoa prejudicada ou correndo riscos pelo falso testemunho é
considerada como sendo demandante, v. 17. E se a pessoa fosse levada à morte,
com base nas evidências, e posteriormente se descobrisse que eram falsas,
qualquer outra pessoa, ou os próprios juízes, ex officio - em virtude do seu
ofício, poderiam exigir que a falsa testemunha se explicasse.
(3) Causas deste tipo, tendo em si uma dificuldade
extraordinária, deviam ser levadas diante da corte suprema, os sacerdotes e
juízes, dos quais se diz que estão perante o Senhor, porque, assim como os
outros juízes ficavam às portas das cidades, também estes, à porta do
santuário, cap. 17.12.
(4) Deveria haver grande cuidado no julgamento, v. 18.
Deveria ser feita uma investigação diligente quanto ao caráter das pessoas, e
todas as circunstâncias do caso. Tudo isto devia sei' comparado, para que a
verdade pudesse ser descoberta. Quando a investigação fosse realizada de um
modo fiel e imparcial, eles poderiam esperar que a Providência os auxiliasse.
(5) Se ficasse evidente que um homem tinha, conscientemente
e perversamente, dado falso testemunho contra seu próximo, embora o mal que lhe
desejava não tivesse sido realizado, este deveria sofrer a mesma penalidade à
qual seu próximo estaria sujeito, devido à sua evidência, v. 19. Nec lex
estjustior idla - Nenhuma lei poderia ser ma is justa. Se o crime do qual ele
acusasse seu próximo devesse ser punido com a morte, também o homem que deu
falso testemunho deveria ser condenado à morte. Se a punição fosse açoitamento,
ele deveria ser açoitado. Se fosse uma multa financeira, ele deveria ser
multado também. E, como para aqueles que não levassem em consideração a
atrocidade do crime e a necessidade de impedi-lo, pareceria ser uma punição
muito dura, por ter dito algumas palavras, especialmente quando nenhum mal
tinha, realmente, sido feito, aqui está acrescentado: “O teu olho não poupará”,
v. 21. Nenhum homem precisa ser mais misericordioso do que Deus. O benefício
que resultará, para o público, desta severidade, a recompensará com abundância:
“Para que os que ficarem o ouçam, e temam”, v. 20. Tais punições exemplares
seriam advertências a outros, para que não empreendessem nenhuma maldade deste
tipo, quando vissem como aquele que fez a cova e a escavou havia caído nela.
2. OS DANOS
Êxo 21.23-25 A Lei de Talião. Temos aqui a declaração
clássica da retaliação olho por olho, dente por dente. Nesse caso, a punição
era de acordo com a natureza do crime cometido, de maneira a mais literal
possível. Ver também Lev. 24.19,20 e Deu. 19.21 quanto a notas expositivas
sobre essa lei. Tal lei provia uma retaliação em proporções exatas, evitando-se
assim os exageros.
O termo “dano” (vs. 23), talvez aluda de volta ao vs. 22: um
homem, em briga com outro homem, viria a ferir a mulher grávida deste, que
viera em seu socorro. Se o ferimento não provocasse somente aborto, mas também
a morte da mulher, então a lei determinava “vida por vida”, a primeira
declaração geral da lex talionis. E o culpado era executado. Nesse caso, a
palavra “dano” aponta para a morte da mulher. Embora o culpado tivesse matado a
mulher sem intenção de fazê-lo, visto ter a mulher grávida e seu filho ainda
não-nascido, o caso se agravava tanto que passava a ser considerado como
assassinato intencional.
Mas há estudiosos que pensam que o vs. 23 dá início a uma
nova seção. Nesse caso, não há qualquer vinculação com o vs. 22. E, assim
sendo, “vida por vida” passa a aludir à ideia de homicídio não-intencional, já
discutido nas notas sobre o vs. 12, ideia que seria aqui considerada de maneira
geral. Por conseguinte, a lex talionis começaria por crimes que merecessem
punição capital.
Bons intérpretes têm visto a questão por um ângulo ou por
outro. Mas mesmo que o vs. 22 esteja em pauta, a expressão “vida por vida” deve
ser entendida como uma declaração geral de que o homicídio intencional
precisava ser punido com a execução do culpado!
Alguns estudiosos cristãos pensam que o aborto é um
homicídio, pois pensam que o texto presente indica que o aborto envolvia a
punição capital do culpado. Mas isso dificilmente concorda como vs. 22. Se a
mulher não fosse ferida, então o simples aborto (nesse caso, provocado), era
punível mediante mera muita.
Mas se tem de ser classificado ou não como uma homicídio
envolve uma complicação difícil de resolver.
A lex talionis é mais antiga que a legislação mosaica, e
vestígios dessa anti- ga lei podem ser encontrados em muitas culturas e em
muitos antigos códigos legais.
Olho por olho...Alex talionis requeria uma retaliação exata.
A vantagem dessa lei é que ela evitava exageros na aplicação da punição. Neste
versículo são enfocadas porções específicas do corpo humano: olho, dente, mão,
pé. Se alguém prejudicasse um dente de outrem, seu dente seria prejudicado; se
prejudicasse um pé, seu pé sofre- ria dano idêntico.
Mas também devemos ver neste versículo um uso metafórico. Os
crimes precisam ser punidos com precisão, e não de forma leniente e nem
exagerada. Tais castigos poderiam nada ter a ver com membros literais do corpo
humano. Este versículo condena a leniência geral que caracteriza nosso moderno
sistema judicial. Os vss. 26 e 27 voltam à questão dos escravos; e nesse caso,
não havia aplicação da lex talionis, porque os escravos eram considerados
propriedades, pelo que a lei era mais branda em seus castigos nos casos de
ferimentos produzidos contra escravos. Os escravos não eram tratados como
iguais e nem possuíam direitos iguais às pessoas livres. Mas entre seres
humanos livres, a lei tinha aplicação estrita.
A lex talionis produziu a mutilação generalizada de muitas
pessoas, porquanto impunha a aplicação da punição em proporções exatas aos
danos causados em alguém. Por essa e outras razões, posteriormente buscaram-se
alternativas para a lex ía/ionis. E, então, a leniência na aplicação das penas
veio a tornar-se a regra geral. Essa leniência, por sua vez, pode tornar-se tão
acentuada que o criminoso nem mais chega a sentir o peso do castigo. De fato,
em alguns paises, como em nosso Brasil, chega-se a pensar que os direitos
humanos, evocados em defesa dos culpados, esquece totalmente as vítimas dos
criminosos. Agora, espera-se que 0 pêndulo da justiça comece a pender de novo,
paulatinamente, na direção contrária, e que os direitos das vítimas passem a
ser melhor reconhecidos.
Jarchi e outros intérpretes judeus informam-nos que, quando
a pena imposta era a perda de um olho, tal pena começou a ser substituída por
uma multa correspondente ao preço de um olho.
A lei era regulamentada pelos anciãos que atuavam como
juizes. Não era permitida a retaliação individual, da parte de pessoas
particulares. Fica entendido, embora não seja dito francamente, que tais
injúrias tinham sido infligidas a propósito. Não obstante, é perfeitamente
possível que até mesmo danos infligidos acidentalmente eram cobertos pela lex
lalionis. Essa lei, embora aparentemente uma boa medida para assegurar a
justiça, na prática permitia muitos abusos e absurdos. Como um princípio,
entretanto, nos ministra uma lição necessária.
Queimadura... ferimento... golpe. Qualquer tipo de dano que
um homem possa provocar em outro, deveria ser castigado com um dano similar. Os
Targuns dos judeus de novo pensam que a interpretação deve ser metafórica. Ou
seja, uma justa retaliação deveria ser aplicada por meio de multas, como “o
preço de uma queimadura” (Targum de Jonathan), ou coisa parecida. As Doze
Tábuas da primitiva legislação romana continham itens assim. Favorino objetava
à aplicação literal da retaliação. Como se poderia fazer um ferimento em alguém
que correspondesse, exatamente, ao ferimento que se fizera contra alguém?
(Apud. Gell. Noct. Attic. 1.20 g. 1). Na primitiva sociedade romana, os
castigos eram negociados. Quando não se podia chegar a um acordo, então era
aplicada a literalidade. Josefo falou em dinheiro pago pelo ferimento feito em
um olho (Antiq. 1.4 c. 33,35).
O cuidado particular que a lei teve com as mulheres
grávidas, para que nenhum mal lhes fosse feito que pudesse provocar o seu
aborto. A lei da natureza nos obriga a sermos muito ternos neste caso, para que
a árvore e o fruto não sejam destruídos ao mesmo tempo, vv. 22,23. As mulheres
grávidas, que desta maneira são tomadas sob a proteção especial da lei de Deus,
se viverem no temor a Ele, podem, ainda, crer estar sob a proteção especial da
providência de Deus, e ter esperança de que serão salvas ao darem à luz. Nesta
ocasião, é introduzida aquela lei geral de retaliação à qual o nosso Salvador
se refere em Mateus 5.38: “Olho por olho”. Bem: 1. A execução desta lei não é,
com isto, deixada nas mãos de pessoas individualmente, como se todo homem
pudesse vingar-se, pois isto causaria confusão universal e tornaria os homens
como os peixes do mar. A tradição dos anciãos parece ter colocado este disfarce
corrupto sobre a lei, e em oposição a isto o nosso Salvador nos ordena que
perdoemos as ofensas e não pensemos em vingança, Mateus 5.39. 2. Deus
freqüentemente realiza a vingança no decorrer da sua providência, tornando a
punição, em muitos casos, uma resposta ao pecado, como visto em Juízes 1.7;
Isaías 33.1; Habacuque 2.13; Mateus 26.52. 3. Os magistrados devem ter em mente
esta regra ao punir os criminosos, e fazer justiça àqueles que são ofendidos.
Deve-se considerar a natureza, a qualidade e o grau do mal que é feito, para
que possa haver reparação à parte ofendida, e outros se contenham para não
fazer nada semelhante. Ou olho por olho, ou o olho ferido será redimido por uma
soma de dinheiro. Observe que aquele que causa o dano deve esperar, de uma
maneira ou de outra, uma recompensa de acordo com o dano que causar,
Colossenses 3.25. As vezes, Deus faz com que as obras violentas dos homens
caiam sobre as suas próprias cabeças (SI 7.16). E os magistrados, quanto a
isto, são os ministros da justiça, pois são vingadores (Rm 13.4) e não trazem
debalde a espada.
3. O PECADO DA MENTIRA.
MENTIRA (MENTIROSO)
1. Definições Básicas
Temos preparado um longo artigo sobre os Vícios, onde é
comentado o vício da mentira. Mentir é fazer declarações propositalmente
falsas, meias verdades que envolvem falsas impressões. Um exagero proposital é
um tipo de mentira, como também o é uma declaração parcial proposital. Até
mesmo as verdades proferidas com o intuito de enganar, naquilo em que visam
iludir, não passam de mentiras. Entretanto, as histórias de ficção, escritas ou
filmadas, embora não correspondam à realidade, não são mentiras, visto que não
se propõem a narrar fatos, mas tão-somente simbolizam fatos e idéias.
2. Palavras Bíblicas Envolvidas
No hebraico encontramos kazab, palavra usada por vinte e
nove vezes, conforme se vê, por exemplo em Juí. 16:10,13; Sal. 40:4; Pro. 6:19;
14:5,25; 19:5,9; Isa. 28:15,17; Eze. 13:8,9,19; Dan. 11:27; Osé. 12:1; Amós
2:4; Sof. 3:13. Também encontramos sheqer, que aparece no Antigo Testamento por
cerca de quarenta e três vezes com o sentido de «falsidade», «mentira»,
(«mentiroso», etc., segundo se vê, para exemplificar, em Jó 13:4; Sal. 63:11;
119:69; Isa. 9:15; 59:3; Jer. 9:3,5; 14:14; 29:21,31; Eze. 13:22; Miq. 6:12;
Hab. 2:18; Zac. 10:2 e 13:3. Ambas as palavras podem indicar «engano»,
«mentira». Outras palavras hebraicas bem menos usadas sãoakzab (Miq. 1:14),
bad, «artifício» (Jó 11:3; Isa. 16:6; Jer. 48:30); kachash, «fingimento» (Osé.
7:3; 10:13; 11:12; Naum 3:1); dabar, «palavra de falsidade» (Pro. 29:12).
No grego encontramospseüdos, «mentira» «falsidade», palavra
empregada no Novo Testamento por sete vezes: João 8:44; Rom. 1:25; II Tes.
2:11; I João 2:21,27; Apo. 21:27; 22:15. E também pseúsma, «falsidade», em Rom.
3:7.
3. Usos Bíblicos
Os homens mentem, principalmente, a fim de enganar. Essa
palavra é usada nas Escrituras para indicar as declarações falsas dos homens acerca
de Deus e das realidades espirituais (Jer. 14:14; Eze. 13:9; Rom. 1:25). A
verdade divina é reduzida a uma mentira, pelas idéias e declarações dos homens.
As mentiras dos homens pervertem, portanto, a verdade dita por Deus. Toda
mentira cria uma falsa certeza (Isa. 28:15). Os resultados da mentira são o
erro e a ilusão (Jer. 23:32). Os padrões morais são solapados pelas mentiras
(Rom. 1:26 ss).
Deus não pode mentir, mas precisa julgar (I Sam. 15:29; Tito
1:2). Por isso, a mentira nunca é atribuída a Deus, mas é atribuída aos homens,
como quando prestam falso testemunho (Pro. 6:19). O ato de mentir era proibido
pela lei mosaica (Exo. 20:16; Lev. 19:11). Os crentes deveriam reconhecer que o
ato de mentir é próprio da vida velha, na incredulidade, devendo ser rejeitado
pelo crente como uma roupa indesejável, segundo se vê em Col. 3:9; «Não mintais
uns aos outros, uma vez que vos despistes do velho homem com os seus feitos». O
trecho de João 8:44 apresenta Satanás como o pai da mentira. Os trechos de Apo.
21:27 e 22:15 mostram que os mentirosos habituais (que o fazem devido à sua
natureza corrompida e não regenerada), ficam impedidos da salvação e do lar
celestial.
4. Discussões Filosóficas
Será errada a mentira, em todos os casos? Alguns filósofos
asseveram que há ocasiões em que mentir é melhor do que dizer a verdade. Um meu
professor de filosofia deu um exemplo em classe, baseado na vida real, ocorrido
durante a Segunda Guerra Mundial. Ele falou sobre um sacerdote católico romano
que se viu envolvido no movimento de resistência subterrânea de um paí» debaixo
do poder militar dos nazistas. Vidas dependiam dele. Quando foi apanhado, ele
confessou, e não mentiu, dizendo aos alemães que, de fato, fazia parte daquele
movimento. O resultado foi desastroso. Também poderíamos pensar no caso dos
pacientes terminais. Tais pacientes devem ficar sabendo da verdade, ou, pelo
menos em alguns casos, é melhor enganar o doente? Há pessoas que simplesmente
querem saber seu estado, e a essas deveríamos dizer a verdade. Mas há outras
que, segundo os médicos e seus familiares julgam, sentir-se-iam menos premidas
se a verdade não lhes fosse revelada, pois ass:m enfrentariam a morte mais
tranqüilamente. Isso posto, em tais casos, seria melhor mentir a um paciente
terminal. Se esses casos são exemplos de exceções válidas à regra contra a
mentira, então podemos afirmar que, algumas vezes, a lei do amor é melhor
servida por um engano (cují intenção é aliviar o sofrimento), do que se dizendo
a verdade chocante e brutal.
«...Não mintais...»
«Sem a honestidade, o fundo cai de todas as outras virtudes.
O amor é aclamado como qualidade suprema da vida cristã; mas Paulo, ao dizer
isso sobre a fé, a esperança e o amor, afirma que a maior delas é o amor, o
qual deve ser sem hipocrisia (ver Rom. 12:9). O amor sem genuinidade é pior que
não ter amor algum. A honestidade é a essência da coragem moral, conforme ficou
demonstrado na vida de Jesus. Uma mentira inocente poderia tê-lo salvado da
cruz, mas ele não a quis proferir, apesar de sua vida estar em perigo. Os
primeiros cristãos deixaram profunda impressão sobre seus contemporâneos, não
meramente por causa do amor que exemplificavam («Vede como esses cristãos se
amam uns aos outros»), mas muito mais pela integridade de suas vidas (ver Tia.
5:12)».
Um criminologista norte-americano asseverou que á fraude é a
ofensa criminal mais propagada nos Estados Unidos da América, permeando todos
os níveis da sociedade. Ê justo supormos que o mesmo se dá em muitos outros
países.
Como a sociedade encara sem seriedade a mentira, o que se vê
no grande número de piadas que se centralizam em redor dessa prática. Mas quão
séria é essa questão, no N .T ., por refletir uma natureza desonesta e
pervertida. Paulo adiciona essa maldade à sua pintada de vícios, conforme se vê
no oitavo versículo. Este, tal e qual os outros vícios, pertence à i natureza
antiga, ao homem velho e não-remido. Tal vício, tal como aqueles outros, é
incompatível com a nossa nova vida em Cristo. No entanto, não é verdade que a
maioria das pessoas, dentro e fora da igreja, diz o que pensa ser-lhes mais
vantajoso, sem importar se é uma verdade ou uma mentira, de tal modo que o
teste real da conduta é o teste «pragmático »? Serei beneficiado, se disser uma
mentira? Se a resposta for «sim», então, para essas, pessoas, a mentira é
preferível à verdade. «...vos despistes...» No grego temos o verbo
«apekduomai», o qual, tal como o verbo do versículo anterior, pode significar
«despir uma roupa». Portanto, o quase certo é que Paulo dá prosseguimento à sua
metáfora do «despir-se» e do «vestir-se», tendo empregado apenas um sinônimo.
Como Nos Despimos Do Velho Homem?
1. Quando aplicam os os meios de desenvolvimento e sp
iritual, desvencilhamo-nos das vestes velhas e sujas que nos caracterizavam
antes da conversão. (Isso é comentado no primeiro versículo deste capítulo).
2. Esse despir-se é realizado por ocasião da conversão (ver
João 3:3), e prossegue na santificação (ver I Tes. 4:3). Ambas as coisas fazem
parte da obra do Espírito.
3. Isso se cumpre através da nossa união com Cristo, por
causa do que assumimos a sua natureza, e assim nos tornamos um «novo homem».
(Ver II Cor. 5:17 e suas notas, quanto a esse conceito. Ver também as notas, em
Rom. 6:3, sob o título «O batismo espiritual»).
4. O trecho de Efé. 4:22 encerra idêntica declaração, e ali
são dadas notas adicionais que .iluminam o tema. O velho homem é representado
pelas vestes velhas. Ele é a natureza antiga, não-convertido, egoísta, carnal,
dominado por motivos carnais e temporais. Cristo é a «nossa vida» (ver o quarto
versículo deste capítulo). Quando isso se toma uma realidade, então nos
tornamos novas criaturas, ou seja, temo-nos vestido de novas vestes,
metaforicamente falando. (Ver o velho homem crucificado, em Rom. 6:6).
«Torna-se perfeitô no4ommio próprio aquele que não somente
se abstém dos prazeres do corpo, mas alegra-se por poder fazê-lo; ao passo que
aquele que se abstém mas se entristece com isso, não tem o domínio próprio».
(Aristóteles):
A m etáfora do «despojamento» nos leva de volta a todos os
vícios mencionados, não aludindo somente à prática da mentira.
O paralelo a este versículo é a passagem de Efé. 4:25, onde
se lê: «Por isso, deixando a m e n tira, fale cada um a verdade com o seu
próxim o, porque somos membros uns dos outros». Quando mentimos para os irmãos,
ferimos o corpo inteiro de Cristo, distorcendo-o e a leijando os seus membros.
O «velho homem» é a «veste antiga», que deve ser, posta de lado.
O velho homem nos impulsionava a ações que nos degradavam,
incluindo a mentira.
Antes de falares,
Faz tudo passar diante de três portas de ouro:
As portas estreitas são, a primeira: ‘Ë verdade!’
Em seguida: ‘È necessário?’ Em tua.mente
Fornece uma resposta veraz. E a próxima
É a última e mais difícil: ‘É gentil?’
E se tudo chegar, afinal, aos teus lábios,
Depois de ter passado por essas três portas,
Então poderás relatar o caso, sem temeres
Qual seja o resultado de tuas palavras.
(Beth Day).
A mentira é contrária tanto à lei da verdade como à lei do
amor. Ë, ao mesmo tempo, injusta e sem gentileza, e tende, mui naturalmente,
por destruir a amizade e a boa fé entre os homens.
«A mentira nos torna semelhantes ao diabo, o pai da mentira,
sendo uma das características principais da imagem do diabo em nossas almas».
(Matthew Henry, in loc., tecendo comentários sobre o trecho de João 8:44).
Referências e idéias, a mentira:
1. A mentira é proibida (ver Lev. 19:11 e Col. 3:9). 2. Ê
abominável a Deus (ver Pro. 6:16-19). 3. Ë uma abominação,contra Deus (ver Pro.
12:22). 4. Ë um obstáculo à oração (ver Isa. 59:2,3). 5. É originada pelo diabo
(ver João 8:44).
6. Os santos devem repelir à mentira (ver Sal. 119:29).7. Devem evitar essa maldade (ver Isa. 63:8).8. Devem orar para serem preservados da mesma (ver Sal.
119:29).9. Os hipócritas são dados à mentira (ver Osé. 11:12).10. Os hipócritas causam a mentira (ver Isa. 57:4).11. Os ímpios mentem desde a infância (ver Sal. 58:3).12. Os ímpio»amam à mentira (ver Sal. 52:3).13. Os ímpios buscam a mentira (ver Sal. 4:2).14. A mentira é uma das características dos apóstatas (ver I
I Tes. 2:9 e I Tim. 4:2).15. A mentira é um vício que exclui dos céus ao indivíduo
(ver Apo. 21:27-22:15).16. O diabo exemplifica a mentira (ver Gên. 3:4).
9. A chamada: Não mintais talvez pareça vir como um
anticlímax, mas os efeitos sociais de promessas e compromissos indignos são
enormes. Possivelmente este desafio pertença à tradição, que é usada para
completar a lista no v. 8. A mesma admoestação ocorre em Efésios 4.25.
A exortação parece estar restrita a uma aplicação dentro da
comunidade cristã, de modo que sua seriedade recebe uma referência deliberada.
A mentira leva a um rompimento da comunhão cristã, porque engendra a suspeita e
a desconfiança, e assim destrói a vida em comum no corpo de Cristo (Rm 12.4)
mediante a qual somos “membros uns dos outros.”
A razão para o abandono dos maus caminhos agora é fornecida.
Uma vez que vos despistes do velho homem com os seus feitos traduz uma frase
que começa com um particípio grego apekdusamenoi (“tendo despido”). É
complementado por um particípio correspondente no v. 10 (gr. endusamenoi,
“tendo vestido”). Todos os comentaristas concordam que há um tema batismal
nestes verbos, tirado da atividade de despir-se para o ato do batismo, quando o
novo cristão entrava na água, e de vestir-se depois.
A referência em Gálatas 3.27 claramente localiza a
experiência como sendo batismal, embora Paulo enfatize igualmente que todos os
leitores das suas Epístolas devem saber apreciar significado “interior” do ato
exterior (cf. Rm 13.12, 14; cf. Ef 4.24).
O problema postulado por estes particípios aoristos, que
denotam um evento passado, é saber se continuam a seqüência das admoestações ou
se relembram o batismo como sendo a ocasião quando o crente fez as renúncias da
sua vida antiga. No primeiro ponto de vista (declarado por Lohse, pág. 141)
Paulo está continuando a linha do seu apelo que começou com a chamada: “Não
mintais,” e ressaltando a obrigação que seus leitores devem enfrentar e agir à
altura para abrir mão dos hábitos que pertencem à sua velha natureza,
despojando 'tudo quanto pertence à sua vida anterior e substituindo-a com um
novo modo de viver. Os particípios têm um sentido imperativo, de acordo com o
uso rabínico e neotestamentário (veja D. Daube: “Participle and Imperative in I
Peter” em E. G. Selwyn: The First Epistle o f St Peter, Londres 1947, págs.
467-88).
O ponto de vista alternativo (compartilhado por Abbott,
Masson, C. Maurer em TDNT vi, pág. 644, e defendido especialmente por J.
Jervell, Imago Dei, Gõttingen, 1960, pág. 236) deve ser preferido como estando
mais de conformidade com o ensino atestado de Paulo. Está chamando os
colossenses de volta ao seu batismo, e conclamando-os a lembrar-se do seu
efeito dinâmico ao libertá-los do seu antigo modo de vida, como conseqüência da
sua união com Cristo pela fé, agora confessada. Passa a conclamá-los, nesta
expressão participial, a viver à altura daquela confissão batismal ao ser leal
a ela, e a tomar-se na própria realidade — mediante sua renúncia e sua
aceitação da sua nova vida, dada a eles enquanto foram ressuscitados com Cristo
— aquilo que já foram declaradamente no seu batismo.
Partes anteriores desta carta — para não irmos mais longe no
assunto da ética paulina (veja V. P. Furnish: Theology and Ethics in Paul,
Nashville, 1968) — confirmam este modo de declarar a intenção de Paulo. Pode
referir-se ao passado, à entrada decisiva dos colossenses no reino de Deus, que
transformou as suas vidas (1.3) quando compartilharam do ato de Cristo em
despir de Si mesmo a tirania dos poderes demoníacos (2.11, 25). Este evento foi
seu batismo (2.12, 13, 20) que inaugurou na união com Cristo, o Senhor, a sua
posição crista (3.1,3).
Esta interpretação ajuda-nos a apreciar o termo enigmático:
velho homem (ou “velho Adão”) e novo homem (ou “novo Adão”). Parece claro que
estes não são novos termos de individualidade mas, sim, são expressões
corpóreas que denotam uma velha e um nova ordem de existência.
Paulo, portanto, está conclamando seus leitores (como em Rm
6.6-14) a acabar com seu antigo estilo de vida, com seus hábitos, inclinações e
alvos, e a viver como aqueles que, no começo da sua nova vida em Cristo,
entraram no novo mundo de uma nova humanidade que está viva para Deus. Nem
devemos esquecer-nos de que, embora Paulo bem possivelmente esteja utilizando
formas tradicionais de expressío (catequética) que eram moeda corrente nas
igreja primitivas, haveria relevância especial deste ensino para os homens e as
mulheres de Colossos que estavam perplexos no que dizia respeito a diretrizes
rivais para o modo de vida dos cristãos, oferecidas em nome dos falsos mestres
no seu meio (2.16-23). A resposta de Paulo e seu antídoto é uma declaração
simples do senhorio de Cristo e o que significa viver sob aquela regra. Seus
leitores (conforme os faz lembrar) eram aqueles que tinham professado lealdade
ao Senhor Jesus Cristo na conversão e na renovação (2.13). Que agora ponham em
prática aquela profissão, procurando ideais éticos cujo padrão é estabelecido por
sua vida no “novo Adão,” o novo segmento da humanidade que obtém sua vida de
Cristo Jesus.
Tenham uma boa aula.
Viva vencendo a mentira e a calúnia que é o falso testemunho, possiveis de arruinar toda uma vida!!!
Abraços.
Seu irmão menor.
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