Samaritanos ainda existem e lutam para não desaparecer
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| Samaritanos durante reza nomonte Gerizim: para grupo, foi ali que Abraão se prontificou a sacrificar seu filho Isaac
Jaafar Ashtiyed/AFP
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FOLHA DE SÃO PAULO
DIOGO BERCITO
ENVIADO ESPECIAL A KIRYAT LUZA (CISJORDÂNIA)
No começo do
século 20, eles tiveram seu desaparecimento anunciado. Não havia, à
época, mais de uma centena de samaritanos no mundo.
Após enganar o monstro da demografia, que os queria devorar, hoje eles são mais de 750, em duas cidadelas.
Mas esses que
se dizem os verdadeiros israelitas bíblicos não baixam a guarda --a
praga demográfica ainda os persegue, agora com a escassez de mulheres
entre eles. A questão é agravada pela proibição ao casamento com
seguidores de outros credos.
Com isso em
mente, os anciões da comunidade passaram a permitir que os homens tragam
mulheres de fora do povoado e da religião para convertê-las e assim
estimular a natalidade.
Eles
escolheram, via agências de matrimônio, em geral russas e ucranianas
--que já caminham nas ruas levando os filhos pelas mãos, conforme a
Folha testemunhou.
Pouco
receptivos a estrangeiros, porém, alguns membros das sete famílias que
moram em Kiryat Luza, uma das duas vilas samaritanas, dizem à reportagem
não estar à vontade com a solução.
"Eu nunca me casaria com uma estrangeira", diz Breeto Cohen, 20. "Quando você faz isso, sai da religião", afirma.
As mulheres
procuradas pela reportagem não quiseram ser entrevistadas. Uma delas,
que disse se chamar Nataly, mora na casa do alto sacerdote do vilarejo.
"Muitos não
gostam [da solução]", diz Abdullah, jovem muçulmano que trabalha como
guia no museu de Kiryat Luza, onde moram 350 dos samaritanos. Os demais
moram em Holon, perto de Tel Aviv. "Eles preferem as mulheres
samaritanas."
O universitário
Rida Altif, que reclama da dificuldade de encontrar uma namorada e da
competição com os amigos, está aberto à opção. "Somos humanos. Eu me
casaria com uma estrangeira."
Mas a alternativa tem uma condição, diz Dan Hakam, 16. "Elas têm de seguir as tradições como a gente."
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| Ed. de arte/Folhapress |
MONTE SAGRADO
Kiryat Luza ocupa o topo do monte Gerizim, um cume seco despontando entre vilarejos árabes.
A vista é
estratégica --embaixo, a cidade palestina de Nablus se esparrama no
vale. Táxis fazem o caminho monte acima por R$ 7. Para descer, o preço é
R$ 1,50.
Durante o dia,
as ruas estão vazias. Um parquinho enferruja, abandonado. Há dois
mercadinhos e uma tenda para bebidas alcoólicas --para suportar o vento
gelado, dizem.
É para essa montanha que todos os samaritanos rumam em dias festivos. A religião pede que ritos sejam realizados apenas ali.
Gerizim é uma
das principais divergências desse grupo em relação aos judeus. Para os
samaritanos, foi no monte Gerizim que Abraão se prontificou a sacrificar
seu filho Isaac. "Os judeus acreditam em Jerusalém", afirma Hakam. "Mas
nós acreditamos nesta montanha."
A separação
entre samaritanismo e judaísmo ocorreu no primeiro milênio antes de
Cristo, quando judeus foram exilados em massa na Babilônia.
A religião que
eles trouxeram de volta, dizem os samaritanos, foi corrompida durante o
tempo de cativeiro, e não corresponde às crenças israelitas.
"Eles se
referem a si mesmos como o 'verdadeiro Israel'", diz Terry Giles,
teólogo da Universidade Gannon, nos EUA, que pesquisa a Bíblia
samaritana. "Eles dizem preservar a religião", afirma.
Há afinidades
entre as crenças de samaritanos, judeus, cristãos e muçulmanos --são
todas religiões ditas "abraâmicas". Mas, isolados entre povos em
conflito, os samaritanos tentam se manter distantes dos irmãos de fé.
"Os árabes pensam que somos judeus", afirma Cohen. "Eles nos agridem."
"Eles não são
gentis", diz o motorista palestino que leva a reportagem de volta à
cidade de Nablus --onde nem todos contam boas histórias sobre a vila
samaritana, montanha acima. Mas a rivalidade entre os dois locais ignora
as pesquisas genéticas e os estudos genealógicos que apontam que a
população palestina de Nablus descende em parte de samaritanos
convertidos durante o Império Otomano.
Abraços.


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