Pastor estuda a Igreja Universal e conclui que a denominação presta um “desserviço a fé cristã”
Estudioso do neopentecostalismo brasileiro, após 3 anos frequentando dentre as Igrejas neopentecostais do Brasil, a considerada mais proeminente denominação nesta vertente teológica, a Universal do Reino de Deus liderada pelo Bispo Edir Macedo, concluiu que a IURD presta um “desserviço a fé cristã”
O pastor americano David Allen Bledsoe, 44 anos e há 14 no Brasil, durante três anos frequentou cultos, ouviu fiéis e líderes e pesquisou
um bocado sobre as origens e o desenvolvimento da mais proeminente
denominação neopentecostal do Brasil, a Igreja Universal do Reino de
Deus (Iurd), liderado pelo polêmico bispo Edir Macedo.
Todo material foi transformado em livro pela Editora Hagnos.
Movimento neopentecostal brasileiro: Um estudo de caso aborda também a
história dessa vertente teológica em solo brasileiro, seus principais
grupos e seu modus operandi. O pastor David disse: “Eu queria verificar
se igrejas como a Universal impulsionam ou prejudicam a evangelização do
povo brasileiro e de outras nações para onde suas igrejas enviam
missionários”. E concluiu que a IURD após a pesquisa elaborada mais
prejudica a evangelização do que impulsiona.
Confira a entrevista do pastor David Allen Bledsoe na integra concedida ao Cristianismo Hoje em 15/04/13 e comete…
CRISTIANISMO HOJE – Por que o senhor, sendo estrangeiro, resolveu fazer um estudo sobre o movimento neopentecostal brasileiro?
DAVID BLEDSOE
– Em primeiro lugar, porque eu queria informar melhor a Igreja no
Brasil sobre o discurso principal desse movimento, suas razões de
existência e crescimento, entre outras características. Escolhi a Igreja
Universal como foco porque ela é a manifestação neopentecostal mais
reconhecida no país. Além disso, comecei a me preocupar mais com os
membros das igrejas neopentecostais em relação ao seu entendimento da
salvação. Percebi um problema grave através de conversas com eles –
encontrei muitas pessoas sinceras e fervorosas, mas com dificuldades em
articular uma razão para sua salvação que se baseasse na fé evangélica.
DAVID BLEDSOE –Há muitos bons
estudos sobre o movimento neopentecostal escritos por sociólogos,
antropólogos, historiadores e jornalistas. Contudo, há poucos que
analisam os ensinos e abordagens neopentecostais com parâmetros
evangélicos. Não descobri nada escrito, por exemplo, sob uma perspectiva
missiológica. Eu queria verificar se igrejas como a Universal
impulsionam ou prejudicam a evangelização do povo brasileiro e de outras
nações para onde suas igrejas enviam missionários.
DAVID BLEDSOE –Lamento dizer que
denominações como a Igreja Universal acabam causando danos à
evangelização no Brasil. Em primeiro lugar, porque projetam uma
caricatura de Cristianismo diante da sociedade. Segundo, porque essas
organizações religiosas são muito antropocêntricas e pouco centradas em
Cristo – ao contrário, há uma forte ênfase no diabo, no poder maligno. É
claro que o Evangelho deve libertar a pessoa do domínio de Satanás; mas
há uma preocupação enorme no discurso neopentecostal e entre os fiéis
com isso, mostrando um erro grave. Além disso, é raro ouvir um adepto
desse movimento que faça menção ao nome de Jesus para a base de sua
salvação. Com pode alguém ser cristão sem Cristo? Em quarto lugar, há
nesses meios um pragmatismo exacerbado. Ora, os meios devem ser tão
justificáveis como os fins quando se fala em esforços missionários. Por
último, vemos que muitos termos, temas e eventos importantíssimos na
história da fé evangélica são ausentes ou redefinidos nessas igrejas, e
isso é traço de facção.
DAVID BLEDSOE –De acordo com o
padrão evangélico estabelecido no meu livro – e esse padrão baseia-se
principalmente nos documentos do Movimento de Lausanne –, ela acabou
sendo desqualificada como tal. A Universal propaga uma mensagem
distorcida do Evangelho, prendendo seus adeptos em uma cosmovisão
religiosa popular, em vez de libertá-los dessa artimanha diabólica. Ela
também emprega rituais religiosos narcisistas e animistas. Outra
característica que a desqualifica como evangélica é que não promove
laços fraternais esperados para uma igreja baseada no Novo Testamento –
ali, a pessoa se relaciona com Deus principalmente através da
instituição e do que ela oferece em trabalhos especializados. Por
último, a Iurd adota postura sectária, agindo com aversão e
superioridade para com os outros grupos. Isso, sem falar na exploração
de seus fiéis, tratando dízimos e ofertas como um ato quase sacramental.
Os grupos neopentecostais têm mais em comum do que diferenças.
Certamente, há nuances em cada igreja; todavia, todas elas acabam
empregando estratégias parecidas: escolha de locais para seus templos
onde ocorre grande movimento de pessoas; uso do rádio e da TV; múltiplas
reuniões por dia; ênfase na cura e na libertação; orações fortes e
tratamento de causas sentimentais e impossíveis etc.
DAVID BLEDSOE –Seria melhor
encará-las como grupos religiosos populares que saíram do
evangelicalismo brasileiro, ou melhor, de pentecostalismo brasileiro,
mas que não tiveram continuidade em áreas fundamentais para serem
incluídos no campo evangélico. Elas são evangélicas apenas no mesmo
sentido que a Igreja do Socorro, em Juazeiro do Norte [no Ceará,
importante centro de peregrinações populares em torno da figura do
falecido padre Cícero Romão, tido como santo pelos devotos], pode ser
considerada uma Igreja Católica Apostólica Romana – isto é, seria uma
forma popular de catolicismo.
No livro, o senhor diz que o modo de operar das igrejas
neopentecostais influencia as denominações pentecostais e até mesmo as
históricas. Como isso ocorre e qual as consequências de tal processo?
DAVID BLEDSOE –O período
neopentecostal é descrito como a terceira onda do pentecostalismo
brasileiro. O termo se encaixa bem, pois ondas têm a capacidade de
transbordar e misturar-se com outros elementos. Paulo Ayres Mattos diz
que o neopentecostalismo é uma série de continuidades e
descontinuidades. Igrejas pentecostais formadas antes dessa terceira
onda, bem como igrejas renovadas e igrejas da missão, têm recebido
influências neopentecostais. Embora algumas tentem alertar seu povo
contra essas influências, podemos observar muitos elementos
neopentecostais em cultos de igrejas de outras linhas teológicas –
principalmente, em relação à confissão positiva e à pregação da
prosperidade.
Edir Macedo, certa vez, comparou a Igreja Universal à massa
de bolo – nas suas palavras, “quanto mais apanha, mais cresce”. O senhor
concorda?
DAVID BLEDSOE –É uma característica
própria da Iurd crescer no meio de múltiplos escândalos. E, muitas
vezes, esses escândalos a seguem por onde quer que vá, criando novos
dramas no campo missionário. Mas há um ponto que quero destacar: não
devemos pensar que o impacto da Iurd já terminou na sociedade
brasileira, diante de seu declínio recentemente revelado no último
Censo. A meu ver, ela se enraizou de tal maneira e em tantas áreas na
sociedade brasileira que, provavelmente, garantiu seu futuro como
instituição na história e no futuro do Brasil. A Universal é associada,
na mente do brasileiro, à Rede Record, a catedrais bonitas em regiões
nobres de grandes cidades e a uma voz de peso em várias camadas da
política nacional. Ela não é mais encarada apenas como um monte de
templos em áreas periféricas, embora esteja lá, ainda. Além disso, o seu
discurso principal e as abordagens empregadas encaixam-se perfeitamente
na cosmovisão do religioso brasileiro popular.
Podemos dizer então que o nepentecostalismo brasileiro está sempre se reinventando?
DAVID BLEDSOE –Concordo quando
dizem que o impacto e o funcionamento das igrejas neopentecostais possa
sofrer alterações nos próximos 20 anos. No entanto, seus líderes já
provaram ser bem criativos e pragmáticos e serão capazes de fazer as
alterações necessárias, ainda mais porque não precisam seguir tradições e
detalhes doutrinários. Tenho lido muitas previsões dando conta de que o
neopentecostalismo já está em declínio, através de algumas
interpretações iniciais feitas com as estatísticas reveladas no último
recenseamento. Entretanto, não vejo que ele vai perder muita força nem
antecipo que haverá uma onda de igrejas neopentecostais fechando suas
portas. Sempre teremos pessoas com problemas físicos, econômicos,
conjugais e outras crises para superar. Além disso, o brasileiro é
naturalmente místico, o que supera a visão racional das coisas. As
pessoas encontram ali um serviço especializado, baseado em lemas como
“pare de sofrer” ou “aqui o milagre acontece”. Então, basta entrar,
cultivar fé e colaborar. Portanto, essas igrejas sempre terão clientela.
O conhecimento teológico e o estudo da Bíblia não são muito
valorizados nas denominações neopentecostais, cuja plataforma está
ancorada na experiência pessoal do crente. Porém, muitas correntes
evangélicas que as criticam por isso enfrentam problemas nessa área,
inclusive falta de interesse dos membros no estudo da Palavra de Deus.
Há relação entre essas duas realidades?
DAVID BLEDSOE –Boa pergunta. Em
geral, a confessionalidade não é algo que se destaca muito nas igrejas
evangélicas brasileiras em geral. Muitas denominações, lamentavelmente,
ou não promovem ou deixam sua confissão de lado. E os pentecostais,
geralmente, têm um pé atrás com o estudo exegético da Palavra, o que
pode ser comprovado por uma frase constantemente ouvida nesse meio: “A
letra mata”. Entretanto, as igrejas de hoje precisam renovar seu
compromisso também na centralidade das Escrituras para fé e prática. A
falta da ênfase na hermenêutica evangélica, em busca da intenção
original dos autores bíblicos para aplicá-la aos nossos dias, abre
espaço para misticismo, leituras superficiais, subjetivismo relativo e
até reinterpretações seculares. Posso até imaginar o apóstolo Paulo no
céu, frustrado, ouvindo o que pregamos e dizendo: “Mas como esse cara
chegou a essa conclusão sobre o que eu escrevi?!?”
Com a clara separação entre o neopentecostalismo e os outros
setores do protestantismo brasileiro, pode-se falar em “dois brasis”
evangélicos?
DAVID BLEDSOE –Sociologicamente,
seria bom se pudéssemos criar essas categorias, para que sociedade
brasileira pudesse entender melhor as duas realidades distintas. Pórem,
isso será difícil até que a Igreja Evangélica brasileira, através de
suas diferentes confissões e associações, resolva se esforçar para
refletir teologicamente e, então, possa responder profeticamente às
tendências, discursos e práticas que caiam fora dos ensinos e valores de
Jesus e dos apóstolos. Temos as Escrituras e 2 mil anos de Cristianismo
para nos nortear sobre as essências. Naturalmente, há um espaço para
não ser tão fechado em questões secundárias, e devemos respeitar as
diferenças.
Ultimamente, outras igrejas brasileiras e entidades
evangélicas têm feito críticas às práticas neopentecostais. Muitos
líderes se dizem prejudicados por elas, já que, na percepção social,
todos são evangélicos – assim, escândalos pontuais acabam prejudicando a
imagem da Igreja como um todo. Por que, então, faltam iniciativas mais
claras no sentido de delimitar essas diferenças?
DAVID BLEDSOE –É outra boa pergunta
que eu já fiz para mim mesmo: Por que não se coloca uma linha divisória
clara em relação ao neopentecostalismo? Acontece que a cultura
brasileira, em geral, não é de confronto; ela é mais pacífica e
tolerante. Minha intenção não é julgar os irmãos brasileiros por não
fazer o que eu queria ver, mas este é um dos motivos que me levaram a
publicar o livro. Quero contribuir para uma conversa necessária sobre o
que é ou não ser evangélico. Penso que isso precisa ser mais discutido
entre líderes, em suas próprias denominações e em associações, já que o
movimento evangélico não possui uma cúpula que declara julgamentos
finais que todas as igrejas aceitarão, e nem queremos isso. Outro motivo
é que a apologética é uma área que precisa ser mais apreciada e
desenvolvida no campo evangélico. Por último, mas não menos importante,
há um entendimento ingênuo, entre nós, do significado da conversão. Se a
pessoa foi batizada em uma igreja evangélica, supomos que ela é, de
fato, evangélica. Porém, como já se disse, passar a noite na garagem não
faz de ninguém um carro…
Essa falta de uma conversão genuína pode ser apontada como o motivo de tanta flutuação de pessoas pelas igrejas?
DAVID BLEDSOE –O brasileiro gosta
de fazer parte de um projeto maior, que favorece movimentos como as
igrejas neopentecostais, por exemplo. Vejo que o brasileiro, em geral,
não é tão anti-institucional e nem tem tanta resistência às estruturas
burocráticas, desde que funcionem para seu proveito. Se acha que o
sistema dá certo para ele, o sujeito não se importa com suas
ineficiências e eventuais problemas.
Mas hoje em dia, os chamados “desigrejados” – pessoas que já
tiveram envolvimento direto com igrejas e que, com o passar do tempo,
foram se desgastando e decepcionando, passando a viver uma fé de
expressão individual ou em pequenos grupos, sem a presença de uma
liderança formal – são um segmento crescente. Na sua opinião como
pastor, esse modelo de fé é legítimo e atende às necessidades
espirituais e devocionais do indivíduo?
DAVID BLEDSOE –A meu ver, a igreja
local pode existir em contextos que não exijam bagagens institucionais. A
Igreja primitiva se reunia nas sinagogas quando podia, mas também nas
casas dos irmãos. A Igreja neotestamentária é aquela em que os crentes
têm compromisso com o Evangelho e também uns com os outros, para estudar
e seguir os ensinos de Cristo e dos apóstolos, à luz das Escrituras
Sagradas. Isso pode ocorrer em residências, salões ou templos. Agora,
sua pergunta sinaliza uma situação que me preocupa. As igrejas do Novo
Testamento possuíam líderes e características que as igrejas de hoje
devem possuir também, como a centralidade de Cristo e a vigilância em
relação aos ensinos contrários aos conteúdos ministrados por Jesus e
pelos apóstolos. Esse modo de vida se manifestava de muitas maneiras
práticas, como a caridade e a pureza, no sentido de viver distintamente
da sociedade. Precisamos refletir sobre se o que temos em nosso meio
realmente é a fé dos apóstolos e se a temos manifestado em caridade e
pureza comportamental. Isso só será possível se o Senhor derramar um
verdadeiro avivamento nacional. A igreja é um grupo, mas nem todos os
grupos são igrejas.
No momento em que o ateísmo e a rejeição à fé crescem em todo
o mundo, inclusive no Brasil, o que se pode esperar para o futuro, em
médio prazo, da Igreja Evangélica?
DAVID BLEDSOE –Devemos esperar o
aumento do número de pessoas sem religião, além do fortalecimento de
outras crenças não cristãs. Por outro lado, a influência do secularismo e
do relativismo é tendência global e vai repetir-se aqui. A Igreja
Evangélica no Brasil estará envolvida nessa nova realidade. Embora haja
desafios, estou esperançoso.
O senhor é missionário internacional da Convenção Batista do
Sul dos Estados Unidos, organização que já teve forte influência no
exterior, inclusive no Brasil. Como é esse trabalho, hoje?
DAVID BLEDSOE –Nos últimos anos,
minha junta missionária, junto com muitas outras, tem priorizado o
envolvimento com povos não alcançados, em vez de investir no que chamam
de campos missionários históricos. É uma visão bastante estreita de
missões, e acredito que irá mudar aos poucos. Além disso, há um
pensamento geralmente aceito entre os evangélicos norte-americanos de
que o Brasil e outros países na América Latina já são bastante
evangelizados e poderiam, portanto, andar com suas próprias pernas, sem
ajuda de fora. Entretanto, ainda há áreas nas quais obreiros vindos de
fora, como eu, podem colaborar, como desenvolvimento de liderança e
educação teológica. Posso dizer que tenho tido o privilégio de trabalhar
com líderes brasileiros, e o Senhor tem me usado para aperfeiçoar
alguns deles. Na Cidade do Cabo [sede do III Congresso Mundial de
Evangelização do Movimento Lausanne, em 2010], ouvi muitos relatórios
dando conta de que a evangelização tem ido razoavelmente bem em muitas
partes do mundo. Porém, as maiores dificuldades, segundo os
missionários, é o desenvolvimento de liderança, particularmente na
educação teológica dos mesmos e na formação de seu caráter. Vejo essas
áreas como o fermento, que somente se manifesta depois de ser amassado e
assado no fogo.
Quais devem ser as principais expectativas do obreiro cristão do século 21?
DAVID BLEDSOE –As expectativas dos
obreiros de hoje não devem fugir ao padrão bíblico esperado. Penso que
Paulo resumiu bem isso na exortação que fez ao seu jovem discípulo
Timóteo: “Atente bem para a sua própria vida e para a doutrina,
perseverando nesses deveres, pois, fazendo isso, você salvará tanto a si
mesmo quanto aos que o ouvem.”
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