24 novembro 2010

PARA ONDE VÃO OS MORTOS?


ENTRE A MORTE E A RESSURREIÇÃO (O ESTADO INTERMEDIÁRIO).
Tendo conhecimento de que o ser humano é formado de duas partes: material e espiritual, e que esta parte espiritual tem existência real, é inevitável que esta pergunta apareça: o que acontece após a morte?
Testemunhas de Jeová e Adventistas do 7° Dia têm a resposta na ponta da língua: o ser humano fica dormindo inconscientes na sepultura até a volta de Cristo (Adventistas), ou a Armagedom (Testemunhas de Jeová). Os Protestantes dizem que estas pessoas vão para um lugar preparado por Deus, e ficam conscientes esperando sua volta. Olhemos o que a Bíblia diz sobre o assunto pra ver quem tem razão.
a) O Antigo Testamento- O AT tem algo a nos dizer sobre a situação após a morte? Sim. Smith escreve que no entendimento dos autores do AT; o ser humano quando morre vai para o Sheol.
Apesar de o Sheol não ser um lugar atraente no Antigo Testamento, pelo menos ele transmitia a idéia de que a morte não era o fim absoluto da existência. Os mortos continuavam existindo como rephâim “sombras” (Pv. 2: 18; 9: 18; 21: 16; Is. 14). [1]
Ladd é de parecer semelhante quando escreve:
No Velho Testamento, a existência humana não termina com a morte. Pelo contrário, o homem continua a existir no mundo inferior. O Velho Testamento na fala da alma, ou espírito, do homem descendo ao Sheol; os homens continuavam a existir como sombras (rephaim). Os rephaim são continuações fracas e em forma de sombras dos seres vivos que perderam a sua vitalidade e vigor”. Eles não são “almas extintas, mas suas vidas têm pouca substância”. O Sheol, onde as sombras encontram-se reunidas, é descrito como um lugar inferior (Sl. 86:13; Prov. 15:24; Ez. 26:20), uma região de trevas (Jó 10:22), um terra de silêncio (Sal. 88: 12; (4: 17; 115: 17). Neste lugar os mortos, que estão reunidos em tribos (Ez. 32: 17-32), recebem os que morrem (Is. 14: 9, 10). O Sheol não é tanto um lugar, e, sim, o estado dos mortos. Não é considerado como uma não-existência, mas também não é vida, pois a vida somente pode ser desfrutada na presença de Deus (Sal. 16: 10, 11). O Sheol é o modo do Velho Testamento de asseverar que a morte não significa o fim da existência humana.[2]
Existe um texto que merece muita atenção sobre este assunto:
Então, lançada por terra, do chão falarás, e do pó sairá afogada a tua fala; subirá da terra a tua voz como a de um fantasma, como um cochicho a tua fala desde o pó (Is. 29:4, grifo meu).
Usando uma linguagem figurada, onde Ariel significa Jerusalém, o autor diz que depois de abatida ela ainda falará de “debaixo da terra”, desde o pó, e esta expressão “desde o pó”, é uma referência a morte (cf. Is. 26:19). Assim, para este autor que expressa a mentalidade do AT, o lugar para onde os mortos iam não era de não-existência completa, de lá algo podia se expressar.
b) O Novo Testamento- Os evangelhos já nos mostram a crença em que o ser humano tem uma parte que sobrevive a morte, pois se não fosse assim textos como este não fariam sentido:
b.1) “Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo” (Mt. 10:28, grifo meu).
Cristo aqui coloca claramente que se pode matar o corpo e não matar a alma. Se quando uma pessoa morresse, a alma morresse também, estas palavras não teriam cabimento.
b.2) No monte da transfiguração, quando Moisés e Elias apareceram, é evidente que vieram de algum lugar, portanto, existe um lugar para onde quem morre salvo por Deus, como Moisés, vai (Mt. 17: 1-7).
E a Bíblia realmente fala que existe um lugar para onde os espíritos maus, ou bons, vão após a morte, e onde alguns anjos maus, que também são espíritos (Hb. 1: 13-14), estão aprisionados (1Pd. 3:19-20; 2Pd. 2: 4-5; Jd. 5-6).
b.3) Quero ainda dar especial atenção a dois textos do NT: 2Co. 5:1-10; Fp. 1: 23-24). Falando sobre 2Co. 5: 1-10, Donald Guthrie escreve:
No presente contexto, as palavras “habitar com o Senhor” devem ter a força de uma experiência imediatamente seguinte a experiência de “deixar o corpo”. Portanto, não é válido nenhum conceito de estado intermediário que não forneça também uma consciência da presença do Senhor.[3]
E sobre Fp. 1:23-24 ele acrescenta: “O conceito (de Paulo) era de um estado existencial em que ele estava plenamente consciente da presença do Senhor”. [4]
Paulo não achava melhor ir para debaixo da terra e ficar esperando a ressurreição, mas ir para junto de Deus onde estão os espíritos dos justos glorificados (Hb. 12: 23-24). Assim, o espírito na bíblia não é algo que se desvanece, um hálito ou vento qualquer. Quando partem daqui as almas ou espíritos são recebidos por Deus para aguardar o julgamento final (Dn. 12: 2). Calvino escreve:
...demo-nos por satisfeitos e não passemos os limites que Deus colocou, a saber, que as almas dos fiéis, ao concluir a sua luta nesta vida mortal, vão a um descanso bem-aventurado, onde com alegria esperam gozar da glória que se lhe tem prometido; e que desta maneira, tudo fica suspenso até que Jesus Cristo apareça como Redentor.[5]
E Agostinho: “No intervalo entre a deposição e a recepção do corpo, as almas ou são atormentadas ou descansam, de acordo com o que fizeram durante a morada no corpo”.[6] Eu concordo com esses dois sábios.
NOTAS
[1] Teologia do Antigo Testamento, p. 366.
[2] Teologia do Novo Testamento, pp. 181-182. Veja também: SMITH, Ralph, pp. 347-358; MINISSALE, A. Sirácida: as Raízes na Tradição (São Paulo: Paulinas, 1993), p. 55.
[3] PIERRAT, Alan B (ed). Imortalidade (São Paulo: Vida Nova, 1992), p. 203.
[4] Idem
[5] Institutas, III. 25.6.
[6] A Predestinação dos Santos (XII, 24).

LUCAS 23:43, PRA ONDE FOI O LADRÃO?


Onde está o ladrão que ouviu estas palavras de Jesus? Com Cristo no Paraíso ou dormindo o sono da morte esperando Cristo voltar? O grupo religioso chamado “Testemunhas de Jeová
[1] dizem que este versículo deve ser traduzido da seguinte forma:

E Ele disse: Deveras te digo hoje: Estarás comigo no paraíso.”


Bem, seguindo o conselho das próprias “Testemunhas” no seu livro “A Verdade que Conduz à Vida Eterna”:
"Precisamos examinar não só o que nós mesmos cremos, mas também o que é ensinado pela organização religiosa com que talvez nos associemos. Estão os seus ensinos em plena harmonia com a Palavra de Deus ou baseiam-se em tradições de homens? Se amarmos a verdade, não precisaremos temer tal exame. Cada um de nós deve ter o desejo sincero de aprender a vontade de Deus para nós e depois faze-la- João 8:32".
[2]


Assim, vamos então examinar mais atentamente o nosso texto.


a) Contrariamente a todos os textos do Novo Testamento grego reconhecidos no mundo, estas pessoas acham que se deve tirar a vírgula de depois da palavra digo, e colocar dois pontos depois da palavra hoje. Fazendo Jesus dizer que estava falando “hoje”, que um dia ladrão estaria com Ele no paraíso. E não que Jesus disse que o ladrão estaria com Ele naquele mesmo dia.


b) Durante toda história da Igreja este texto ensinou que o ladrão estaria com Jesus naquele mesmo dia, mas estes grupos religiosos acham que todo mundo estava errado, e eles descobriram a verdade. Será? Ora, se Jesus quisesse dizer que o ladrão estaria com ele no paraíso só no final dos tempos, quando Ele voltasse, porque Jesus usou a palavra “hoje”? Ninguém fala: “Olha, eu te digo hoje: vou almoçar com você; eu te digo hoje: você está bonita; eu te digo hoje: vou estar contigo domingo”. A palavra hoje nesses casos é supérflua, sem sentido. E Jesus não falava assim. Não se fala assim hoje, nem era modo de falar do idioma grego da época de Cristo.


c) Mas nós temos como tirar a prova. Esta expressão: “Em verdade te digo” foi muito usada por Jesus e para descobrir como Jesus falava é só dar uma olhada em todas as vezes que ele empregou esta frase. Observe:


a) Mateus: 5:18, 26; 6:2, 5, 16; 8:10; 10:15, 23; 11:11; 13:17; 18:13, 18; 21:31; 23:36; 24:47; 25:12, 40, 45.
b) Marcos: 3:28; 8:12; 9:1, 41; 10:15, 29; 11:23; 12:43; 13:30; 14:9, 18, 25, 30.
c) Lucas: 4:24-25; 12:37; 23:43.
d) João: 1:51; 3:3, 5, 11; 5:19, 24-25; 6:26, 32, 47, 53; 8:34, 51, 58; 10:1, 7; 12:24; 13:16, 20-21, 38; 14:12; 16:20, 23; 21:18.


Em todas as ocorrências desta expressão (em verdade te digo) nos evangelhos Jesus nunca diz: “Em verdade te digo hoje”, Ele sempre diz: “Em verdade te digo” e o que vem depois é sempre o complemento. Assim, Lc. 23:43 deve ser: “Em verdade te digo, hoje estarás comigo no paraíso”. Se Jesus sempre falava de uma maneira, porque Ele iria mudar só aqui em Lucas colocando uma palavra “hoje” fora de lugar, falando de um jeito que se mudar a pontuação a frase fica sem sentido? Não posso mudar a pontuação de um versículo para que ele se encaixe na minha doutrina. A pontuação de Lc. 23:43 não foi colocada ao acaso, ela foi posta observando como Jesus usava a expressão: “Em verdade te digo”, e Ele sempre usava a mesma de uma só forma, portanto, a palavra “hoje” não faz parte da primeira sentença, mas da segunda. O hoje não é o dia em que Jesus está falando, pois o ladrão sabia que Jesus estava falando naquele dia, não precisava Jesus dizer. O hoje se refere ao dia no qual o ladrão estaria no paraíso com Jesus. Assim, naquele dia os corpos dos dois foram para a sepultura, mas seus espíritos/almas para o paraíso.CONCLUSÃO
Assim, o ensino que a alma do ser humano morre não é bíblico nem evangélico, o ser humano tem uma parte que sobrevive a morte do corpo, e é essa parte que vai estar com o Senhor quando o ser humano deixa este planeta. Então, conservemos íntegros os nossos corpos e espíritos para o Dia do Senhor quando havemos de prestar contas de todos os nossos atos por meio dos mesmos.

NOTAS
___________
[1] Os Adventistas do 7° Dia pensam de maneira semelhante.[2] New York: International Bible Association, 1968. p. 13 (Grifo meu).

Joelson Gomes

O QUE É A ALMA E O ESPÍRITO SEGUNDO O NOVO TESTAMENTO


O Novo Testamento (NT)- Analisamos as palavras hebraicas do AT para a constituição humana, agora vamos olhar as palavras grega do NT. Temos então as seguintes palavras:
± Sarx (carne)- Barclay, profundo conhecedor do grego bíblico chega a dizer que esta palavra é muito difícil e que não temos para a mesma uma tradução adequada. Ele diz que se usa a mesma para designar a condição física (Gl. 4: 13); pode ser sinônima da expressão “humanamente falando” [1] (Rm. 4:1); e pode significar “o ponto de vista humano” (2Co. 5:16). Diz ainda que Paulo tem um jeito distintivo de empregar esta palavra, que é o seu conceito de carne como inimiga no conflito na alma (Gl. 5:17).[2]
± Pneuma (espírito)- Esta palavra é empregada no NT em contextos variados:
a) Pode ser a parte do ser humano que se relaciona com Deus (Rm. 1:9; 1Co. 6:17; 14:14-17, 32; Gl. 6:18; Ef. 4:23). Ladd chega a concluir que é porque o homem é espírito que pode entra em relacionamento com Deus.[3]
b) Pode ser a parte interior do ser humano (1Co. 7:34; 2Co. 7:1). Esta parte pode, as vezes, está em oposição ao corpo (Rm. 2:28-30; Fp. 3:3; Mt. 26: 41).
c) Pode ser o princípio vital do ser humano (Mt. 27:50; Lc.8:55;23: 46).
d) Pode ser a vida psíquica em geral (Mt. 5:3; 26: 41; Mc. 2: 8; 8:12; 14: 38; Lc. 1:47).
e) Pode ser a disposição interior da pessoa (1Co. 4:21; !5:44-49; 2co. 12:18; Fp. 1:27).
± Kardia (coração)- Esta palavra também pode ser entendida como:
a) A personalidade (vida interior, caráter) (Mt.7: 21);
b) Aspectos emocionais (Lc. 24: 32; Rm. 9:2);
c) Intelecto (Mc. 2:16; Rm. 1:21; 2Co. 9:7; Ef. 1:18).
d) Vontade (Mt. 5:28; Rm. 2:5; 6:17; 1Co. 4:5).
± Psyque (alma)- Mais uma palavra que recebe no NT mais de um significado.
a) Vida física (Mt.12:20);
b) Princípio vital do ser humano (Lc. 12:20; At. 20:10; Rm.16:4; Fp. 2:30);
c) Estados emocionais (Mc. 14:34);
d) Aspectos volitivos, intelectuais (At. 4:32; !4:2; Fp. 1:27);
e) A própria pessoa (1Co. 15:45; 1Pd. 3:20);
f) A vida espiritual (1Pd. 1:9, 22; 2:11, 25).[4]
Depois desta visão que tivemos das palavras que as Escrituras empregam para a constituição do ser humano quero acrescentar que as mesmas têm que ser bem estudadas no seu contexto, para se ter uma compreensão correta das mesmas. Nunca podemos esquecer que as mesmas possuem uma rica significação. Não se isolar um significado de uma palavra dessas sem levar em conta as outras e seus usos distintos.
NOTAS:
[1] Romanos (Barcelona: CLIE, 1995), p. 128.
[2] As Obras da Carne e o Fruto do Espírito, pp. 20-24; Vd. Também LADD, George Eldon. Teologia do Novo Testamento 2ª ed. (Rio de Janeiro: JUERP, 1993),pp. 435-442.
[3] Teologia do Novo Testamento, 2a ed. (Rio de Janeiro: JUERP, 1993), p. 431.
[4] Veja MUELLER, Ênio R. I Pedro, Introdução e Comentário (São Paulo: Vida Nova), p. 91.
graçaplena

 

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